sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Devaneios de um Escritor




            Existem muitas armas que podem matar o ser humano. Existem muitas formas de ferir um atleta. Mas nada – repito: nada – mata um artista, um escritor, como a preguiça e a ansiedade demasiada.

Primeiro, a preguiça me dominou. Depois, o tempo me consumiu. Daí eu já não conseguia mais escrever coisa alguma.

Não me impediu de ter ideias boas, mas impeliu-me de colocá-las em prática, de transformá-las em algo.

E isso era o mais importante.

Escrever é ser solícito. Alguma coisa que existe dentro de você, simplesmente pede e você faz.

Às vezes não lhe é preciso nem de ideias, planejamento ou outra coisa qualquer, só coragem. O começo de uma pequena fagulha de inspiração, sentando na cadeira com altivez para encarar os pecados que estarão por vir à primeira página.

Começando desse ponto de partida, você consegue seguir em frente, preenchendo o mundo vácuo, sem espaço e altura. Sem limites.

Sobre todas as outras coisas, o ato de escrever é sobre ser corajoso. Muito mais do que na vida real. Nem sempre precisamos ter uma ideia fenomenal, um lampejo divino – as mãos tremem de repente, seu corpo estremece e o coração tropeça por alguns instantes – essas coisas.

Não.

Você não precisa ser o dono de uma obra de arte. Precisa ter coragem. Muito dela.

E quando se sentir mostrando-se de corpo e alma ao mundo, despindo-se sem pudor das regras que o regem, você vai estar se apresentando ao universo da mesma forma que veio a ele: sem ideias engrenadas e raciocínios engatilhados. Você cai ao chão exausto, corpo livre e solto, pálido de todas as coisas que despejou para fora. Você se encontra deitado e estático como uma folha branca de papel.

Após o momento de coragem que se apresentou altivamente ao mundo, o escritor se acovarda.

Aguardamos durante semanas. Meses. Lemos, cortamos, remexemos – editamos o texto ao nosso gosto. Depois passamos o texto para conhecidos lerem. De preferência àqueles que compartilham do mesmo sentimento, que tivemos no momento de escrever. Então recebemos os elogios e as críticas.

Ah sim, claro, as críticas. Muito, muito importantes.

Seja parabenizado; ouça todos lhe dizerem sobre o seu argumento e expressarem suas opiniões. Alegre-se e se inspire. Tome as críticas como partida para melhorar. No dia seguinte, não pense. Vá, e escreva. Sem decorrência.

Feito? Então esqueça-se dos elogios, eles não valem mais de nada. Não para você.

Não serão eles a trazer experiência. Irão te fortalecer e impulsioná-lo ao próximo passo: melhorar. Mas não transformarão você em algo melhor. As críticas fazem isso.

Então escreva.

Coragem. Reedite o texto, releia, corte, preencha. Coragem.

Mostre para outras pessoas desta vez. Repita o processo, cada vez mais e mais intenso.

Mostre a todos. Não só há um grupo de pessoas.

Á todos.

Pois o ato de escrever nem sempre é sólido, nem sempre partirá de uma ideia e história inteira a se contar.

Às vezes, começamos apenas do pressuposto de se ter uma pequena premissa e a coragem o suficiente para iniciá-la. Dar-lhe vida.

Como foi este texto aqui.


Christian Vinharski

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SIGA SEUS SONHOS - NEIL GAIMAN


Antes de mais nada, uma rápida apresentação para quem não conhece a lenda.

Neil Gaiman é um dos escritores e roteiristas mais conhecidos e aclamados da atualidade. Autor de obras memoráveis como os quadrinhos Sandman, Hellblazer, Livros da Magia (do qual serviu de inspiração a J.K Rowling, escritora de Harry Potter). Escreveu também uma sequência de livros famosos como Deuses Americanos, Lugar Nenhum, e O Livro do Cemitério -- só para citar alguns. Foi ainda roteirista de cinema, no o épico Beowulf e a peculiar Coraline.

De longe, Neil Gaiman é um dos maiores autores assim como faz parte da lista dos "Top literários" de muitos leitores e escritores de hoje.

E por isso, o que ele tem a dizer é algo importante a se ouvir.

Segue um discurso do escritor, feito na University of the Arts, na Filadelfia (Estados Unidos), onde ele inspira e encoraja os artistas (não só os escritores).

Vale a pena:




~ SIGA SEUS SONHOS ~


Nunca espe­rei me encon­trar dando con­se­lhos para pes­soas se gra­du­ando em um esta­be­le­ci­mento de ensino supe­rior. Eu não me gra­duei num des­ses esta­be­le­ci­men­tos. Nunca sequer come­cei um. Esca­pei da escola assim que pude, quando a pers­pec­tiva de mais qua­tro anos de apren­di­za­dos for­ça­dos antes que eu pudesse me tor­nar o escri­tor que dese­java ser era sufocante.

Eu saí para o mundo. Escrevi. Torn­ei-me um escri­tor melhor na medida que escre­via mais. Escrevi um pouco mais, e nin­guém nunca pare­cia se impor­tar de que eu estava inven­tando na medida em que eu pros­se­guia – eles sim­ples­mente liam o que eu escre­via e paga­vam por isso. Ou não.

E fre­quen­te­mente eles me enco­men­da­vam alguma outra coisa pra fazer para eles. O que me dei­xou com um sau­dá­vel res­peito e admi­ra­ção pela edu­ca­ção supe­rior do qual meus ami­gos e fami­li­a­res, que fre­quen­ta­vam essas uni­ver­si­da­des, se cura­ram há muito tempo atrás.

Olhando para trás, eu tri­lhei uma cami­nhada memo­rá­vel. Não tenho cer­teza de que posso chamá-la de uma car­reira, por­que uma car­reira implica que eu tivesse algum tipo de plano de car­reira e eu nunca tive.

A coisa mais pró­xima que tive foi uma lista que fiz quando tinha 15 anos com tudo que eu que­ria fazer: escre­ver um romance para adul­tos, um livro infan­til, uma revista em qua­dri­nhos, um filme, gra­var um áudi­o-­book, escre­ver um epi­só­dio de Dr. Who… e assim por diante.

Não tive uma car­reira. Eu sim­ples­mente fui fazendo a pró­xima coisa da lista.

Então pen­sei em con­tar para vocês tudo que gos­ta­ria de saber de saída e algu­mas coi­sas que, olhando para trás, supo­nho que eu sabia. E tam­bém em dar o melhor con­se­lho que já recebi, o qual falhei miseravelmente em seguir.

O pri­meiro de todos: quando você começa uma car­reira na arte, você não tem idéia do que está fazendo.

Isso é ótimo!

As pes­soas que sabem o que estão fazendo conhe­cem as regras, e sabem o que é pos­sí­vel e o que é impos­sí­vel. Vocês não.

E vocês não devem.

As regras sobre o que é pos­sí­vel e impos­sí­vel na arte, foram fei­tas por pes­soas que não tinham tes­tado os limi­tes do pos­sí­vel indo além deles. E vocês podem.

Se vocês não sabem que é impos­sí­vel é mais fácil fazer. E por­que nin­guém fez antes, não inven­ta­ram regras para evi­tar que alguém faça.

Em segundo: se você tem uma idéia do que você quer fazer, sobre o que você foi colo­cado aqui no mundo para fazer, então sim­ples­mente vá e faça.

E isso é muito mais difí­cil do que parece e, algu­mas vezes, no fim, muito mais fácil do que você pode­ria imaginar.

Porque nor­mal­mente há coi­sas que você pre­cisa fazer antes de que você possa che­gar aonde quer estar.

Eu que­ria escre­ver qua­dri­nhos, roman­ces e his­tó­rias e fil­mes, então me tor­nei jor­na­lista, por­que jor­na­lis­tas têm per­mis­são para fazer per­gun­tas, para sim­ples­mente ir adi­ante e des­co­brir como o mundo fun­ci­ona, e além disso, para fazer essas coi­sas eu pre­ci­sa­ria escre­ver. Escre­ver bem.

E eu estava sendo pago para apren­der como escre­ver de forma econômica e cla­ra, às vezes em con­di­ções adver­sas, em tempos adversos.

Algumas vezes o cami­nho para fazer o que você espera fazer estará cla­ra­mente deli­ne­ado; e às vezes será quase impos­sí­vel deci­dir se você estará ou não fazendo a coisa certa.

Porque sempre terá de balan­cear suas metas e espe­ran­ças, alimentar-se, pagar as con­tas, encon­trar tra­ba­lho e se ade­quar ao que pode encontrar.

Uma coisa que fun­ci­o­nou para mim foi ima­gi­nar que onde eu gos­ta­ria de estar – um autor, prin­ci­pal­mente de fic­ção, fazendo bons livros, fazendo bons qua­dri­nhos e me man­tendo atra­vés de minhas pala­vras – era uma mon­ta­nha. Uma mon­ta­nha dis­tante. A minha meta.

Eu sabia que enquanto me man­ti­vesse andando em dire­ção à mon­ta­nha eu esta­ria bem. E quando eu não estava verdadeiramente certo acerca do que fazer, eu poderia parar e pen­sar se aquilo estava me levando à mon­ta­nha ou me afas­tando dela.

Eu disse não para tra­ba­lhos edi­to­ri­ais em revis­tas – tra­ba­lhos ade­qua­dos que teriam me pagado muito bem – por­que eu sabia que por mais atra­ti­vos que fos­sem, para mim, esta­riam me dei­xando mais dis­tante da mon­ta­nha. E se essas ofer­tas tives­sem apa­re­cido mais cedo tal­vez eu as tivesse aceitado.

Elas ainda me dei­xa­riam mais perto da mon­ta­nha do que eu estava na época.

Aprendi a escre­ver escre­vendo. Eu ten­dia a fazer qual­quer coisa, desde que pare­cesse uma aven­tura. E eu parava de fazer, quando pare­cia tra­ba­lho – o que sig­ni­fi­cou que a vida não se pare­cia com trabalho.

Ter­ceiro: quando você começa, pre­cisa lidar com os pro­ble­mas do fra­casso. Vocês pre­ci­sam ser “osso duro de roer”, pre­ci­sam apren­der que nem todo pro­jeto sobre­vi­verá.

Uma vida como fre­e­lan­cer, uma vida na arte, é mui­tas vezes como colo­car men­sa­gens em gar­ra­fas numa ilha deserta, e espe­rar que alguém encon­tre uma dessas gar­ra­fas, abra, leia e colo­que algo em outra gar­rafa que fará seu cami­nho de volta: seja ele um apreço ou enco­menda. Dinheiro ou amor.

E vocês têm de acei­tar que vocês pode­rão lan­çar uma cen­tena de coi­sas para cada gar­rafa que apa­re­cerá retornando.

Os pro­ble­mas do fra­casso são pro­ble­mas de dês-en­co­ra­ja­mento, de deses­pero e ansi­e­dade. Você deseja que tudo acon­teça, e quer que as coi­sas acon­te­çam agora.

E as coi­sas dão errado.

Meu pri­meiro livro – uma peça de jor­na­lismo que tinha feito pelo dinheiro, e que já tinha me com­prado uma máquina de escre­ver ele­trô­nica do adi­an­ta­mento – deve­ria ter sido um Best-­sel­ler. Deveria ter me pagado muito dinheiro. Se a edi­tora não tivesse invo­lun­ta­ri­a­mente ido à ban­car­rota entre a pri­meira impres­são se esgo­tar e a segunda sair, e antes que quais­quer direi­tos pudes­sem ser pagos, ele teria me dado muito dinheiro.

E eu dei de ombros. Ainda tinha minha máquina de escre­ver ele­trô­nica e dinheiro o bas­tante para pagar o alu­guel por um par de meses, e decidi que eu faria o meu melhor para no futuro não escre­ver livros ape­nas pelo dinheiro.

“Se você não ganha dinheiro, então você não tem nada”.

Se eu fizesse um tra­ba­lho do qual me orgu­lhasse e não ganhasse grana, ao menos eu teria trabalhado.

De vez em quando, esqueço essa regra. E sem­pre que o faço o uni­verso me bate com força para me lembrar dela.

Não sei se isso é um pro­blema para mais alguém além de mim, mas é ver­dade que tudo que fiz em que a única razão era ganhar dinheiro, jamais valeu a pena – exceto como amarga expe­ri­ên­cia.

Normalmente nunca dei o tra­ba­lho por encer­rado ao rece­ber o dinheiro, por outro lado, as coi­sas que fiz por­que estava empol­gado e que­ria vê-las exis­ti­ndo, nunca me decep­ci­o­na­ram e eu nunca me arre­pendi do tempo gasto com nenhuma delas.

Os pro­ble­mas do fra­casso são difíceis.

Os pro­ble­mas do sucesso podem ser ainda mais difí­ceis, por­que nin­guém lhes avisa sobre eles.

O pri­meiro pro­blema de qual­quer tipo de sucesso limi­tado é a con­vic­ção ina­ba­lá­vel de que você está fugindo com algo, e de que a qual­quer momento irão descobri-lo.

É a Síndrome do Impostor, algo que minha esposa Amanda bati­zou de Polícia da Fraude.

Em meu caso, eu estava con­ven­cido de que alguém bateria na minha porta, e um homem com uma pran­cheta (não sei por que ele car­re­gava uma pran­cheta, mas em minha cabeça ele car­re­gava) esta­ria lá para me dizer que estava tudo aca­bado e eles me pega­riam. E que agora eu teria de ir e con­se­guir um tra­ba­lho de ver­dade, algum que não con­sis­tisse de inven­tar coi­sas e escrevê-las, e ler livros que eu qui­sesse ler.

E então eu par­ti­ria silen­ci­o­sa­mente e pega­ria o tipo de tra­ba­lho no qual você não tem de inven­tar mais coisas.

Os pro­ble­mas do sucesso... Eles são reais e com sorte vocês irão experimentá-los. O ponto em que você para de dizer sim pra tudo, por­que agora as gar­ra­fas que você lança no oce­ano estão todas vol­tando, e você pre­cisa apren­der a dizer não.

Obser­vei meus colegas e ami­gos, aque­les que eram mais velhos que eu, e obser­vei quão infe­li­zes alguns deles se sen­tiam. Eu os ouvi dizendo que não podiam enca­rar um mundo no qual não tivessem que fazer o que sem­pre qui­se­ram fazer – por­que agora eles tinham de ganhar uma certa quan­ti­dade de grana todo mês ape­nas para se man­ter onde esta­vam.

Eles não podiam ir e fazer as coi­sas que impor­ta­vam e que real­mente que­riam fazer; e isso me pare­ceu uma tra­gé­dia tão grande quanto qual­quer pro­blema de fracasso.

E depois disso, o maior pro­blema do sucesso é que o mundo cons­pira pra que você pare de fazer o que você faz.

Por­que você é famoso.

Houve um dia em que olhei e me dei conta de que eu tinha me tor­nado alguém que pro­fis­si­o­nal­mente res­pon­dia e-mails e escre­via como um hobby. Eu come­cei a res­pon­der menos e-mails, e fiquei ali­vi­ado por per­ce­ber que estava escre­vendo muito mais.

Em quarto: eu espero que vocês come­tam erros.

Se vocês estão come­tendo erros, sig­ni­fica que estão por aí fazendo algo. E os erros em si podem ser úteis.

Uma vez escrevi o nome Caroline errado em uma carta, tro­cando o A pelo O, e eu pen­sei, “Coraline, parece um nome real…”. E daí surgiu meu livro.

Lembrem-se, não importa a área em que este­jam, se você é um músico ou fotó­grafo, um artista fino ou um car­tu­nista. Um escri­tor, um dan­ça­rino, um desig­ner... O que quer que faça, você têm algo que é único. Você têm a habi­li­dade de fazer arte.

E para mim, e para mui­tas das pes­soas que conheço e conheci, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas defi­ni­tivo. Ele lhe leva atra­vés dos bons momen­tos e pelos outros.

A vida às vezes é dura. As coi­sas dão errado, na vida e no amor e nos negó­cios e nas ami­za­des e na saúde e em todos os outros modos que a vida pode dar errado.

E quando as coi­sas ficam difí­ceis, isso é o que vocês devem fazer. Fazer boa arte.

Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política?

Faça boa arte.

Perna esma­gada e depois devo­rada por uma jiboia mutante?

Faça boa arte.

Imposto de renda te ras­tre­ando?

Faça boa arte.

Gato explo­diu?

Faça boa arte.

Alguém na inter­net pensa que o que você faz é uma merda ou já foi feito antes?

Faça boa arte.

Provavelmente as coi­sas se resol­ve­rão de algum modo e even­tu­al­mente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça ape­nas o que você faz de melhor.

Faça boa arte.

Em quinto: enquanto esti­ve­rem nisso, façam a sua arte. Façam as coi­sas que só vocês podem fazer.

O impulso inicial é copiar. E isso não é uma coisa ruim. A mai­o­ria de nós só des­co­bre nos­sas pró­prias vozes depois de ter­mos soado como um monte de outras pes­soas!

Mas uma coisa que você tem que nin­guém mais tem, é você. Sua voz, sua mente, sua estó­ria, sua visão. Então escreva e dese­nhe e cons­trua e toque e dance e viva como só você pode viver.

No momento em que sen­tir que você está andando na rua nu, – expondo muito de seu coração, de sua mente e do que existe em seu inte­rior, mos­trando demais de si mesmo – esse é o momento em que você pode estar come­çando a acertar.

As coi­sas que fiz que mais fun­ci­o­na­ram foram as das quais menos estava certo. As estó­rias das quais eu tinha cer­teza de que fun­ci­o­na­riam ou mais pro­va­vel­mente seria o tipo de fracasso emba­ra­çoso, que as pes­soas se jun­tam para falar até o fim dos tem­pos.

Elas sem­pre tive­ram isso em comum: olhando em retros­pec­tiva, as pes­soas expli­cam por­que foram suces­sos ine­vi­tá­veis.

Enquanto as estava fazendo, eu não tinha ideia. Ainda não tenho.

E onde esta­ria a graça de fazer alguma coisa que você sou­besse que iria funcionar?

Às vezes as coi­sas que fiz real­mente não fun­ci­o­na­ram. Há estó­rias minhas que nunca foram reim­pres­sas. Algumas delas nunca sequer saí­ram da minha casa. Mas eu aprendi com elas tanto quando aprendi com as coi­sas que funcionaram.

Sexto: eu pas­sa­rei algum conhe­ci­mento secreto de fre­e­lan­cer.

Conhecimento secreto é sem­pre bom. E é útil para qual­quer um que alguma vez já pla­ne­jou criar arte para outras pes­soas.

Eu aprendi isso com os qua­dri­nhos, mas se aplica a outros cam­pos tam­bém. E isto é:

As pes­soas são con­tra­ta­das por­que de algum modo, elas são con­tra­ta­das.

Em meu caso eu fiz algo que atu­al­mente seria fácil de che­car, e me colo­ca­ria em pro­ble­mas. Quando come­cei, naque­les dias pré-internet, pare­cia uma estra­té­gia de car­reira sen­sata: quando edi­to­res me per­gun­ta­vam para quem eu já tinha tra­ba­lhado, eu men­tia.

Eu lis­tei uma série de revis­tas que soa­vam razoá­veis, e soei con­fi­ante, e con­se­gui os empregos. Então trans­for­mei em uma ques­tão de honra con­se­guir escre­ver algo para cada uma das revis­tas que eu lis­tei para con­se­guir aquele pri­meiro emprego. De modo que não menti de fato, só fui cro­no­lo­gi­ca­mente desa­fi­ado… Você trabalha de qualquer maneira, desde que trabalhe.

As pes­soas se mantêm tra­ba­lhando em um mundo de fre­e­lan­ces, e mais e mais do mundo de hoje é fre­e­lance, por­que seu tra­ba­lho é bom e por­que são fáceis de con­vi­ver. Elas entre­gam o tra­ba­lho em tempo. E você nem pre­cisa de todos os três. Dois em três está bom.

As pes­soas irão tole­rar quão desa­gra­dá­vel você é se seu tra­ba­lho for bom, e você o entre­gar no prazo. Elas per­do­a­rão o atraso do tra­ba­lho se ele for bom, e se elas gos­ta­rem de você.

E você não pre­cisa ser tão bom quanto os outros se for pon­tual e se for sem­pre um pra­zer conversar com você.

Quando con­cor­dei em fazer esse dis­curso, come­cei ten­tando pen­sar em qual tinha sido o melhor con­se­lho que já havia rece­bido ao longo dos anos. E ele veio do Stephen King há vinte anos atrás, no auge do sucesso de Sandman.

Eu estava escre­vendo um qua­dri­nho que as pes­soas ama­vam e esta­vam levando a sério. Stephen King gos­tara de Sandman e de meu romance com Terry Pratchett, o Belas Maldições (Good Omens).

E ele viu a lou­cura, as lon­gas filas de autó­gra­fos, tudo aquilo, e seu con­se­lho foi este:

“Isso é real­mente ótimo. Você deve­ria aproveitar isso.”

Eu não apro­vei­tei.

O melhor con­se­lho que recebi eu igno­rei. Ao invés disso, me pre­o­cu­pei com aquilo. Pre­o­cu­pei-me com o pró­ximo prazo, a pró­xima ideia, a pró­xima estó­ria.

Não houve um momento nos pró­xi­mos qua­torze ou quinze anos em que não esti­vesse escre­vendo algo em minha cabeça, ou ima­gi­nando a res­peito.

Eu não parei e olhei ao redor e pen­sei: “isso é real­mente diver­tido”.

Eu que­ria ter apro­vei­tado mais.

Tem sido uma cami­nhada incrí­vel, mas houve par­tes da tri­lhada que eu perdi, por­que estava muito pre­o­cu­pado nas coi­sas darem errado, sobre o que viria depois, e não apreciei a melhor parte em que estava.

Essa foi a lição mais difí­cil pra mim, eu acho. Rela­xar e cur­tir a cami­nhada. Por­que a jor­nada o leva a alguns luga­res memo­rá­veis e inesperados. E aqui, nesta pla­ta­forma hoje, é um des­tes luga­res.

E eu estou cur­tindo isso imensamente.

Para todos os gra­du­an­dos de hoje eu desejo a vocês: sorte.

Sorte é útil. Frequentemente vocês des­co­bri­rão que quanto mais duro e mais sabi­a­mente vocês trabalharem, mais sor­tu­dos serão. Podem apostar.

Existe sorte, e ela ajuda.

Estamos em um mundo em transição neste momento. Isso é, se todos vocês estiverem em qualquer campo artístico. Então, todos estamos num mundo em transição.

A natu­reza da dis­tri­bui­ção está mudando, os mode­los pelos quais os cri­a­do­res entre­ga­vam seu tra­ba­lho pelo mundo (e con­se­guiam comer sanduíches e man­ter um teto sobre suas cabe­ças por isso), estão todos mudando.

Eu falei com pes­soas do topo da cadeia ali­men­tar em publi­ca­ções, e em todas essas áreas nin­guém sabe com qual pai­sa­gem se pare­cerá daqui a dois anos – o que dirá daqui a uma década.

Os canais de dis­tri­bui­ção que as pes­soas cons­truí­ram ao longo do último século, ou mais, estão em con­tí­nua mudança, para os impres­sos, para os artis­tas, para os músi­cos. Para as pes­soas cri­a­ti­vas de todos os tipos.

E o que é por um lado inti­mi­dante, é por outro imen­sa­mente liber­ta­dor!

As regras, as supo­si­ções, o agora, nós deve­mos fazer de como você con­se­gue expor seu tra­ba­lho e o que você faz a seguir, está ruindo. Os por­tei­ros estão dei­xando seus por­tões abertos. Vocês podem ser tão cri­a­ti­vos quanto pre­ci­sa­rem para con­se­guir visi­bi­li­dade.

YouTube e a web (e o que quer que venha depois do YouTube e da web) podem dar a vocês mais pes­soas de audi­ên­cia do que a tele­vi­são jamais deu. As velhas regras estão des­mo­ro­nando e nin­guém sabe quais são as novas regras.

Então inven­tem suas pró­prias regras.

Alguém recen­te­mente me per­gun­tou como fazer alguma coisa que ela achava que seria difí­cil – em seu caso, gra­var um áudi­o-­book – e eu sugeri que ela fin­gisse que ela era alguém que pode­ria fazê-lo.

Não fin­gir fazê-lo, mas fin­gir que era alguém que podia fazer.

Ela colo­cou uma nota para este efeito na parede do estú­dio, e disse que isso ajudou-lhe muito.

Então sejam sábios. Por­que o mundo neces­sita de mais sabe­do­ria e se vocês não pude­rem ser sábios, fin­jam ser. E então ape­nas se com­por­tem como um sábio se comportaria.

Agora vão.

Come­tam erros inte­res­san­tes, come­tam erros mara­vi­lho­sos, façam erros glo­ri­o­sos e fan­tás­ti­cos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais inte­res­sante por vocês esta­rem aqui.

Façam boa arte.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Um Conselho aos Artistas (Não só os Escritores)



"Ninguém diz isso às pessoas que são iniciantes. Eu gostaria que alguém tivesse me dito.

"Todos nós, que fazemos um trabalho criativo, começamos porque temos bom gosto. E esta é justamente a barreira.  Os primeiros dois anos em que você começa a trabalhar, as coisas não são boas. Aquilo que você faz está tentando ser bom, tem até potencial, mas não é bom.

"Só que o seu gosto é a única coisa que você tem em jogo, e ele é um assassino. E por ser seu gosto é por isso que seu trabalho decepciona tanto a você mesmo.

"Muitas pessoas NUNCA passam dessa fase; elas desistem. A maioria das pessoas que conheço que fazem trabalhos interessantes e criativos, passaram anos por isso. Sabemos que nosso trabalho não tem aquela coisa especial que queríamos que ela tivesse.

"Todos nós passamos por isso.

"E se você está apenas começando, você ainda está nesta fase e tem de saber que é normal, e que a coisa mais importante que você pode fazer é TRABALHAR MUITO. Coloque-se em um prazo para que a cada semana você termine uma peça do trabalho.

"É só passando por uma série de trabalhos que você será suficientemente calejado, e superará essa barreira. E, seu trabalho será tão bom quanto suas ambições. Eu levei muito tempo para entender como isso funcionava, mais tempo do que todos que já conheci.

"Vai demorar um pouco. É normal demorar algum tempo. Você só tem de levantar e trilhar o caminho."

Ira Glass