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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 4 (Final)

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                A sala era grande, alta e redonda. A iluminação alva da lua provinha do teto circular aberto ao ar livre, e ao longo das paredes, sete estátuas de mármore cheia de veios representavam figuras endiabradas com garras, chifres e dentes protuberantes; paralisadas numa alegoria dos pecados mortais. O chão liso era entrecortado por reentrâncias  na rocha, formando um pentagrama meticulosamente esculpido.


                Um homem tatuado e uma mulher de aparência jovem jaziam na sala de joelhos e braços amarrados para trás, esperando àqueles que seriam seus carrascos. Simion notou que possuíam no semblante uma expressão desprovida de esperança; estavam desgarrados de suas vidas como gado ao aguardo do matadouro.

                Resignação, foi a palavra que lhe veio a cabeça.

                — Agora em suas posições. — falou Hiraeth, depois de cada um puxar dos bolsos os componentes obrigatórios do ritual.

                Os sacerdotes negros, Illith e Urungoy, caminharam até os dois humanos e arrastaram-nos pelo enorme pentagrama no chão. Houve um resquício de resistência por parte da mulher que Illith puxara, mas que foi rapidamente aquietada numa bofetada.

                Ao todo eram seis, e cada um estava prostrado numa ponta cardeal baseada nos vértices da estrela. Empunhando os componentes mágicos, Hiraeth começou o louvor, logo depois sustentada por uma cantiga macabra entoadas por Urungoy e Illith. Não demorou muito para que chegasse a vez de Simion, que ergueu os braços e proferiu as palavras em uníssono.

                O elfo púrpura já havia se encontrado ali antes, naquela mesma situação perniciosa, e quando minutos depois do início do ritual o céu começou a lançar correntes de vento atroz, arrancando árvores do chão, anunciando uma tempestade com os clarões por de trás das nuvens carregadas, Simion soube que estava próximo.

                — Agora! — gritou Hiraeth, e todos eles puxaram um punhal prateado contra o vendaval. Os três bruxos sangraram os próprios pulsos, largando os componentes ao chão. O pentagrama foi tomada por uma aura de luz sombria e um ruído estranho no céu fez a espinha de Simion gelar.

                Illith foi o primeiro, caminhando até a mulher ajoelhada, seguindo a aresta do desenho geométrico. Girou por de trás dela, e num puxão, ergueu seu rosto em direção ao céu tempestuoso.

                — Sangue jovem por libido inacabável! — gritou.

                 A faca encontrou o pescoço da menina, rasgando-lhe a pele fora a fora. Um jorro incontido de sangue banhou o desenho no chão. O corpo da garota caiu mole, a luz negra assimilando suas voltas.

                "Ainda não", lamentou Simion, entre dentes. "Ainda não é  hora".

                Em seguida marchou Urungoy. Equilibrando-se pela linha reta chegou até o homem do outro lado da sala; agarrou-o pela nuca.

                — Sangue mágico, por domínio arcano. — e rasgou-lhe a traqueia.

                Ouviu-se um trovão lá no alto no mesmo instante que o vermelho esguichou do pescoço para frente. As nuvens do céu, escuras e pesadas como chumbo, já haviam escondido o luar na tempestade. Lá fora, as árvores lutavam para se manter no chão, as raízes estalando sob o solo.

                Hiraeth puxou a joia e a ergueu para o centro do pentagrama, Simion fitou seu coração amaldiçoado nas mãos da mulher.

                — A vida esculpida, por uma juventude longeva! — disse ela, e antes que pudesse qualquer coisa, Simion sacou uma faca escondida e cortou o pulso, derramando seu sangue púrpura no desenho.

                — Não! — gritou Illith.

                Houve um segundo de exasperação.

                — O que está fazendo, idiota?! — Urungoy arguiu.

                O elfo mostrou os dentes.

                — Façamos uso do sacrifício de vocês... com um pedido de verdade. — disse olhando para Hiraeth que mantinha o olhar paralisado nos dele. Ela tentou se mover para continuar o ritual, mas trincou os olhos ao perceber que estava petrificada em sua posição, as mãos erguidas a frente segurando a joia. Os outros dois repetiram a intenção e não obtiveram sucesso.

                "Como as estátuas da sala". — o elfo deu uma risada sarcástica.

                — Simion... O que você vai... — a pergunta de Hiraeth ficou no ar. O elfo púrpura sentiu o aperto sobrenatural no peito, algo o forçando a desistir.

                — Vai prender nossas almas no limbo, imbecil, você não tem nada a oferecer — urrou Urungoy.

                — Errado. — disse ríspido.

                Simion partiu ágil, sobre a linha que ligava o cardeal a Urungoy e, num instante, estava sobre ele.

                — Eu tenho vidas. A vidas de todos vocês.

                Antes que o contrariasse, a faca do elfo assobiou no ar e foi de encontro ao pomo de adão do homem. Um barulho nojento vazou no canto da lâmina junto com incontáveis filetes de sangue, e então o elfo puxou a arma para si. O corpo do brutamontes tombou pesado.

                — NÃO! — Illith exasperou, tentando se mover. Simion atravessou a sala como um raio sob as arestas e chegou até ele, gracioso.

                — Por favor, eu —

                Corte.

                O corpo do segundo caiu, num instante, mole.

                Hiraeth mexeu os olhos como pôde, mirando Simion com uma expressão de pavor, temendo ser sua hora.

                — Simion... — gaguejou — Por que me traiu?

                O elfo sabia que não havia tempo, e um relâmpago o lembrou disso quando arranhou as nuvens com um ruído tremendo.

                — Eu não seria capaz disso — Simion murmurou com a voz abafada — Só que estou cansado. Cansado de sofrer, Hiraeth — e se aproximou.

                Lágrimas brotaram dos olhos da mulher.

                — Então me mate. Acabe com esse desespero — Hiraeth soluçou. — Acabe com isso, me mate...

                Simion enxergou o sofrimento nos olhos da mulher. Seus segredos sombrios lhe saltaram na memória no instante que avistou a joia; assim como ela antes havia lhe entregado as verdades de Hiraeth, no simples toque. Se perguntou se a maldição havia lhe desgraçado, tanto quanto ele a amada. A pedra não só o corrompeu, percebera. Numa outra vida tudo teria sido diferente, quem sabe?

                O suor nas mãos de Simion escorregavam o cabo da faca.

                — MATE-ME! — Hiraeth berrou.

                Um estrondo maciço ecoou na parte do paredão da montanha ao lado, um rochedo tão enorme quanto um navio se desprendeu mergulhando no precipício.

                Simion sorriu.

                — Eu não posso.

                O elfo girou a ponta da arma para si, fincou-a no ventre sem cerimônias. Abriu a pele lilás num puxão de baixo a cima, da barriga ao pescoço. Hiraeth gritou, a visão do elfo pesando. Uma onda de sensações indescritíveis subjugou o que restara dos sentidos; tato, visão, olfato, paladar, audição... Tudo se desligou. Simion piscou com a última imagem à sua frente: Hiraeth.

                Escuridão.

* * * * *

                Quando anos depois uma carroça atravessou uma estradinha esburacada e ladeada por milharais e outras plantações de trigo, os camponeses da cidade de Portfeld responderam as perguntas do cocheiro apontando para o vilarejo que permeava o redor do castelo.

                — E o que aconteceu no final? — perguntou uma garotinha de cabelos em caracóis.

                Uma procissão de crianças estavam sentadas a beira do lago que abastecia o vilarejo, impressionadas, queriam saber o final da história dramática cheia de magia negra e mistérios.

                — Bem — disse a menina em pé, com os joelhos brancos ralados da infância, e o vermelho vivo do cabelo dançando arredio na brisa leve. — Acontece o que acontece como nas outras histórias. Eles vivem felizes para sempre.

                — Ahh, bobagem! — reclamou um menino do fundo. — Hiraeth não sabe terminar a história e não teve coragem de dizer o que acontece com eles no final...

                As crianças olharam para ele.

                — O quê?

                — Eles morrem, é claro. — ele disse encolhendo os ombros. Um burburinho entre eles começou, alguns retorcendo o rosto para aquilo.

                — Eu prefiro acreditar no final da Hiraeth — disse uma garotinha de olhos azuis e sardas no rosto — É muito mais bonito.

                — Pft... — reprovou o garoto. — Mas histórias assim não acontecem de verdade. Vamos, eu prefiro brincar de cavaleiro contra o ladrão!

                As crianças levantaram e correram rapidamente se espalhando no vilarejo, pegando pedaços de pau e galhos no chão, improvisando-os como armas de brinquedo. Hiraeth ficou sozinha na beira do lago. Seu olhar voltou-se para água enquanto correu os delicados dedos até o relicário que tinha no pescoço; uma pedrinha vermelha presa num cordel.

                Um cavalo relinchou, anunciando uma carroça que acabara de frear no meio do vilarejo. Distante em seus pensamentos, Hiraeth não percebeu quando passos se aproximaram dela e estacou próximo.

                — Ei, menina de cabelos vermelhos

                A garota se virou. Era um jovem, oito ou nove anos, assim como ela. Cabelos negros e escorridos possuía um semblante calmo e bonito. Hiraeth apertou a joia, escondendo-a — não a mostraria para ninguém. Sob o olhar atento do rapaz, ele sorriu.

                — Você também tem não é? As visões... — ele remexeu os bolsos e tirou uma lasca de pedra vermelha, semelhante com a dela, estendeu em sua direção, mostrando. — Veja. Eu também posso ver... As pessoas, as visões...

                Hiraeth pendeu a boca, não acreditara naquilo. Achara desde cedo que havia nascido com alguma maldição; sonhos de bruxa? Era perigoso demais.

                — Eu também tinha medo no começo — ele disse — Mas depois entendi o que significa, a pedra me contava uma história... Me trouxe até aqui.

                Ela compreendeu.

                — Qual é o seu nome?

                — Hiraeth... — disse num tom inseguro. Ele sorriu, e ela retribui o mesmo. Algo no peito do jovem se mexeu. — E você?

                O menino olhou para trás, o cocheiro, o homem de cabelos negros e azulados que o adotara desde cedo, estava certo quando o aconselhava sobre as visões: Bielefeld era o reino da cavalaria, dos heróis e da nobreza. Mas também era o reino das verdades e da bondade pura. Tudo que havia de acontecer, era porque era justo.

                O rapaz voltou-se para a jovem ruiva e sorriu.

                — Me chamo Simion.

                As duas joias ascenderam.

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~ Christian Vinharski

domingo, 4 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 3 (penúltimo)

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                Já era noite silenciosa quando os cavalos de Simion e Hiraeth anunciaram sua chegada, partindo um galho seco, provocando um estalar agudo. Avistaram a silhueta dos dois anfitriões que os esperavam — ambos se levantaram ao mesmo tempo na chegada dos visitantes. Ao lado deles havia uma gruta aquinhoada a um paredão de rocha escarpada, a montanha alta.

                — Illith e Urungoy — pronunciou Hiraeth quando aproximou o cavalo dos dois. Ambos fizeram uma mesura rígida e depois repetiram o movimento à Simion. O elfo os observou através da penumbra e forçou-se a não retorcer o rosto em desprezo. Os dois não haviam apenas atraído o asco de Simion como também seu ódio. Se havia seres mais desprezíveis que àqueles dois, o elfo ainda não conhecera em vida.

                O bruxo a que chamavam de Illith, estava sob uma capa de um veludo azul desbotado e empapado de sangue seco, indicando o carniceiro, que Simion sabia, que ele era. O capuz maltrapilho sobre a cabeça ajudava a esconder os cabelos ralos e esburacados, que compunham a figura simiesca que era seu rosto. Um dos olhos possuía uma cicatriz grotesca que há muito havia lhe tirado a visão e em troca deixado o olho leitoso. Simion imaginava quão desgraçado havia sido a falha daquele ataque — não concedia perdão à quem não havia arrancado a vida do maldito. Já Urungoy era mais alto e encorpado, escondendo o peito largo e deformado por debaixo da túnica negra. Assim como o outro, abrigava o rosto por de baixo de uma toca, mas o queixo protuberante elevava-se para frente revelando os dentes tortos, paralisados no sorriso sínico e maldoso da expressão ordinária. As manzorras cheia de calos e pústulas sugeriam à Simion que o homem fosse capaz de torcer o pescoço de um cavalo apenas com força bruta. Não importava.

                Aquilo logo teria um fim.

                Simion apeou do cavalo e aproximou-se de Hiraeth ajudando-a desmontar. Illith aproximou-se dos dois com as mãos juntas.

                — O local está todo pronto, armamos o terreno conforme a posição do luar — veio sua voz arranhada.

                — Ótimo. — disse Hiraeth. — Qual será o serviço prestado no ritual de vocês?

                O elfo viu a cicatriz do homem se retrair junto ao rosto de alegria antecipada enquanto movia suas mãos freneticamente, limpando algo invisível como um mosca.

                — A juventude de uma moça — respondeu ansioso.

                — O sangue de um abençoado. — disse Urungoy, logo atrás.

                Sem querer saber o que ganhariam em troca, Simion achou ambas respostas suficientes para ganhar sua aversão. Aparentemente Hiraeth também não quis saber.

                — Sem mais atrasos, vamos logo. — ela ordenou.

                Os quatro entraram pela caverna lodosa, arrastando os cavalos sob o protesto dos mesmos — os animais sentiam o ar hostil, viam que àquele lugar tinha algo de errado. Sob os relinchos langorosos, foram levados até uma baia improvisada que havia no caminho. Uma vez amarrados, Simion, Hiraeth, Illith e Urungoy se colocaram a caminhar subindo uma rampa natural da gruta, num aclive escorregadio, até se depararem com uma porta de madeira e bronze, ladeada por dois pedestais de archote com figuras demoníacas esculpidas na base.

                Hiraeth tomou a frente, ergue as mãos na direção da porta e entoou palavras ininteligíveis. Ouviu-se um estampido sinistro do outro lado da parede e então a porta destrancou.

                — É hora. — proclamou Hiraeth. E entraram.

sábado, 3 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 2

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                Ele estava acorrentado à Hiraeth. A cada passo que se distanciava, as correntes enrijeciam puxando-o para trás. Como se libertar de alguém que tinha como algema seu próprio coração?

                Do alto de uma árvore, o elfo observou o sol ainda baixo sobre as montanhas no horizonte, ascendendo o dia ao longo que cobria os campos de capim além da visão do reino de Bielefeld. As cenas pesarosas da noite anterior visitavam sua mente repetidas vezes, importunas como uma lembrança descartável que insistia em fazer parte da memória rotineira.

                Lembranças.

                Os elfos púrpuras eram nômades ávidos, vivendo numa caravana insistente pelo mundo de Arton. Não se sabia ao certo de onde vieram e há quantos séculos surgiram, mas era claro que não haviam conseguido achar o seu lugar. A raça de pele roxa e cabelo congênere estabelecia-se pouco tempo em um território — menos ainda era seu contato com os demais povos do Reinado, na maioria das vezes sendo apenas fábulas misteriosas contadas à crianças incautas e que eram feitas de troça pelos elfos de Lenórienn. Mas um segredo ainda mais enigmático se ocultava em sua existência. Atingida a maturidade de um elfo púrpura, seu coração transformava-se em uma joia, que uma vez palpável, devia ser guardada em silêncio ou entregue à uma pessoa de confiança que a assegurasse. Caso caísse em mãos erradas, o elfo teria sua vida comprometida a uma eternidade de escravidão aos desejos de seu dono, possuidor do poder de sua existência.

                Quando Simion completara cem anos de sua vida longeva, seu pai, líder da caravana de seu povo, honrou seu nome com um casamento prometido a filha de um de seus compatriotas. Os elfos púrpuras mantinham a tradição rígida de casar-se entre si para que seus segredos não esvaíssem ao mundo, mas Simion relutou contra a ideia. Depois de meses de tormento, o rapaz revelou que havia sido desperto. Uma vez que o elfo púrpura tinha de presentear seus coração a uma alma segura, a paixão dele era eterna. Um elfo da raça nunca seria capaz de amar outra pessoa, uma vez que esse sentimento fosse despertado em seu íntimo. E Simion havia se apaixonado por uma humana.

                Tomado pelo sentimento de rebeldia, e motivado pela fúria de seu pai e os protestos de seu povo, Simion fugiu com a joia em mãos, viajando ainda madrugada, para entregar o presente à Hiraeth, a humana que havia sido a responsável pelo seu amor. Ela por outra vez, era uma itinerante que há meses havia cruzado seu caminho. Feita de beleza e cabelos de fogo, a menina correspondera sua paixão; Simion só não poderia saber que o resto da história seria sofrimento, Hiraeth também possuía segredos ocultos.

                — Está na hora. — a voz veio de baixo da árvore. O elfo despertou de seus devaneios quando viu a bruxa aproximando-se, vestia uma túnica verde escura que se escondia por de baixo de uma capa cinzenta e de tecido grosso que se arrastava ao chão pelo caminho feito. A mulher escondia o rosto sob o capuz.

                — Hora de quê? — perguntou Simion intrigado. Saltou da árvore e caiu ao seu lado, analisando o rosto de Hiraeth com cautela.

                — Você se esqueceu? — ela ergueu a mão e tocou seu rosto — Não o culpo, ontem foi uma noite difícil e dolorosa, como está se sentindo?

                Simion fechou os olhos enquanto se amaldiçoava por amá-la. Era algo além de seu controle, que desfalecia os pensamentos de ódio, vingança, bastava um toque.

                Ele fez que sim com a cabeça. E depois:

                — Para onde vamos?

                — O ritual — ela disse. Simion gelou por dentro.  Lembrou-se do dia que era do mês, sua mente estava em frangalhos depois das torturas que sofrera. Os olhos de Hiraeth  faiscaram quando pareceu notou interesse no semblante do elfo. — Espero que tenha pego tudo que lhe pedi.

                — Tudo — confirmou. — Apenas não havia me lembrado que era hoje

                — Amanhã — ela lhe corrigiu e então abaixou o braço. — Mas viajaremos hoje, temos de estar no terreno à meia-noite.

                — Pegarei os objetos arcanos.

                Ela sorriu.

                — Eu te amo. — disse.

* * * * *

                Quando guardou o último utensílio na bolsa de componentes, um par de asas de morcego amarrados em uma fita feita raiz, Simion deixou escapar uma lágrima de desespero e socou a parede. Seu coração encontrava-se escuro, sua alma pesada. Os dois iriam juntos para o inferno. A joia que era seu coração podia não ser mágica, mas carregava dentro de si a imortalidade de sua raça. Hiraeth era uma humana, enquanto ele um ser de vida longa. Quando a mulher tocara no relicário pela primeira vez, Simion pôde provar da sensação que os mais velhos de seu povo descreviam: os sentimentos daquele que segurava a joia eram partilhados pelo seu dono, ambos se tornavam um, o elfo conheceu as sombras mais obscuras do passado de Hiraeth, e naquele momento descobrira que era uma bruxa.

                Ela o convenceu de que esse fato poderia ser facilmente ignorado se fosse amor verdadeiro, e ele se forçou a acreditar nisso por um tempo. Mas Hiraeth era uma mortal de vida curta, e quando o primeiro mês de lua cheia surgiu, ela lançou sobre a joia uma maldição. A vida do elfo seria drenada toda lua completa de cada meses, reduzindo sua longevidade e dando juventude à alma de Hiraeth. Os dois viveriam a mesma quantidade de dias de vida, os mesmos meses, os mesmo anos. Morreriam juntos.



                Simion carregou os equipamentos do ritual para fora, montando no cavalo junto à mulher e partindo em viagem. Trincou os dentes se amaldiçoando por àquilo. Ele sabia para onde estavam indo, e sabia como dar fim a seu sofrimento. Que fosse rápido, trair Hiraeth ficava mais difícil à cada hora. E se não o fizesse nesse mês, talvez fosse tarde demais.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 1


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                Naquela silenciosa noite, Simion grunhiu entre dentes quando sentiu a fisgada no peito mais uma vez. Parou de caminhar pelo extenso corredor da casa de madeira e tombou o corpo trêmulo para o lado, apoiando-se numa das paredes e ficando próximo à janela que deixava a luz prateada entrar.

                — Sempre na lua cheia — reclamou entre dentes — Como pude me esquecer?

                Simion se perguntou o por que daquilo tudo, e o propósito de seu sofrimento.  Nenhum homem devia sofrer por tomar decisões como as dele. Talvez seu povo fosse de fato amaldiçoado; os elfos púrpuras consideravam-se puros e perfeitos, primogênitos entre seus irmãos raciais; mas que outro elfo no mundo era torturado pelo simples fato de amar?

                No meio de seus devaneios, sentiu de novo a estocada em seu peito, mais forte e voraz. Estremeceu uma das pernas caindo com os joelhos ao chão, e resistiu à dor com os punhos serrilhados, enterrando as unhas na palma da mão. Quando amenizou, voltou a se levantar e esquadrinhou o corredor da casa sob o protestar do chão de madeira rangendo. Levou uma eternidade até ganhar a porta dupla de carvalho escuro no final do caminho.

                Quando a abriu, viu Hiraeth sentada em um cama grande de frente para a porta, com as pernas cruzadas e um de seus braços apoiados sobre a coxa do vestido branco, segurando algo que brilhava intenso, mas abafado pelas duas mãos. Os longos cabelos vermelhos de fogo atenuavam a beleza invejável, e fez com que Simion pensasse mais uma vez que não tinha como saber quando a conhecera: jamais em sonho alguém deduziria que ela fosse uma bruxa.

                — Eu sei que dói — a mulher murmurou enquanto fitava os olhos amendoados ao elfo — Por isso o chamei, sei que dói, e sei que é por minha culpa... — àquele tom de voz culposo, teria feito Simion perdoá-la de imediato, se não fosse a primeira vez que aquilo acontecia.

                — Então pare — respondeu ele, olhando para ela e o que carregava nas mãos — Basta que você —

                Uma dor estrondosa atravessou seu corpo de súbito e impediu que o elfo continuasse. Suas costas contorceram e ele caiu ao chão sem fôlego. Hiraeth continuava imóvel, olhando-o do alto da cama com um semblante que indicava um misto de tristeza e dó.

                — Eu sei, mas não posso — disse ela complacente  — Somos como um agora, meu bem.  Você me tem, eu o tenho — ela sorriu. — As dores são necessárias às vezes, nos tornam mais fortes.

                — Como pode dizer isso — praguejou Simion no chão, a falta de ar lhe dominando a garganta seca — Sendo que só eu é quem sofro?!

                Hiraeth fechou os olhos numa expressão negativa e apertou a luz da palma das mãos, a dor de Simion rompeu dessa vez com um estrondoso ganido de sofrimento. O elfo caiu mole no chão. Depois disso, silêncio.

                A mulher se levantou da cama, e caminhou pelo tapete vermelho ornamentado em linhos de ouro e parou de pé ao seu lado. Abriu as mãos e viu que a joia que segurava parava de brilhar. Olhou por uma das enormes janelas envidraçadas do quarto e viu que a lua se escondia por de trás de uma nuvem preguiçosa no céu.

                — Está feito. —ela disse.

                Simion estava estagnado, jogado ao chão de braços abertos e olhos vidrados mirando o teto, um retrato dos últimos segundos do pesadelo que lhe engolfara.

                — Já pode parar de reclamar, meu amor — disse Hiraeth — A dor já passou e não volta mais. Não neste mês— mais um sorriso, genuíno. Ela agachou ao seu lado, mostrando a joia vermelha, admirando-a e compartilhando sua conquista com ele. Estava convicta de que, assim com ela, Simion apreciava o tesouro. — Poucos são como nós, querido. Poucos podem ter tanto. A dor é passageira, mas o poder... Ele dura para sempre.

                 Hiraeth beijou carinhosamente seus lábios e Simion, pôde sentir a joia pulsar nas mãos da bruxa no mesmo instante que algo em seu peito se remexeu. Ela se levantou e partiu, deixando-o largado no tapete até que o tempo lhe recuperasse.

                Era sempre assim: uma vez por mês, nas noites de lua cheia. A dor, as lembranças, os arrependimentos.

                Horas depois o elfo se levantou, como nas outras vezes, sozinho e em silencio. Os fantasmas de seus pensamentos o assombraram no escuro.  A dor não era só física. Os deuses o puniam. Ele fora desgraçado pois decidiu que nessa vida amaria uma bruxa.

                Caminhou até uma das janelas, olhando para nada em especial.

                "Tem de ser feito", pensou Simion. A joia já estava escura como sangue, talvez não durasse mais um ou dois meses. Havia feito de tudo para não ter de tomar àquela decisão, mas agora não lhe restava mais opção alguma. O mundo se devastava sob seus pés como se o chão fosse de vidro.

                Simion tinha de matar Hiraeth.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Igreja do Bem e do Mal


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A IGREJA DO BEM E DO MAL



Chegou uma carroça puxada por bois. A carga macabra era composta por mulheres de todas as idades. Velhas, moças e crianças. O povo aplaudia.

- Um momento de silêncio, em nome de Deus, por favor. – gritou o padre do alto do palanque.

As pessoas iam parando de berrar aos poucos, um burburinho tomou conta do povo que ia se acotovelando brigando por espaço, uma busca incessante por uma visão melhor do espetáculo que iria começar.

- Hereges! – gritou um homem.

O burburinho se intensificou até se transformar em berros.

Prostrado ali, longe da visão de muitas pessoas, Daniel olhava para o céu, analisando quanto tempo levaria. O sol ia se afastando e tudo indicava que a noite de lua seria insuficiente para iluminar sua volta para casa.

Daniel morava longe. Era a primeira vez que havia entrado naquele vilarejo e o fizera por ordem de seu mestre:

- Bruxos serão queimados daqui a cinco noites – havia dito ele – Quero você por lá, é uma cerimônia que todos devemos ver. Principalmente gente como nós.

Daniel era um bruxo – aprendiz de um. Novo e inexperiente, nunca havia visto em sua vida uma sentença a hereges. Embora soubesse que mulheres eram caçadas e queimadas na fogueira da Inquisição, Daniel nunca havia visto cerimônia como esta.

- Sim, sim – exclamou o padre ao povo, fazendo gestos com as mãos, pedindo silêncio a plebe. – São hereges, bruxas. Cuspiram na cruz, invocaram demônios, talvez tenham condenado toda nossa vila perante Deus.

As pessoas vociferavam.

- Mas ainda assim haverá um julgamento perante os olhos Dele.—continuou o padre. – E vocês são testemunhas, todos nós somos.

Daniel olhou para o céu novamente, e havia um motivo maior a fazê-lo. Fitou de longe as crianças que seriam julgadas e ponderou que tudo àquilo começasse logo. Sabia que enquanto a sentença fosse a tarde, seria mais branda: enforcamento.

Caso contrário, se a noite caísse e o céu vestisse preto, as crianças iriam ter de partilhar a dor candente da fogueira, o mesmo que aconteceria às mulheres mais velhas.

A Igreja era crente do principio que toda bruxa deveria ser julgada sob o escuro, mas purificada com a luz.

Daniel sonhara uma vez que era queimado vivo – mais que isso, era um presságio. O pouco dos dons que as pessoas normais ainda partilhavam dos bruxos.

Lembrou consigo mesmo, da ardente dor que era ser consumido pelo calor e pela fumaça. Talvez fosse a pior forma de morrer.

- Sem dúvidas que é. – disse uma voz em suas costas.

Daniel se virou e viu seu mestre, um homem franzino de cabelo escuro e pele clara. Respondia apenas pela alcunha de “bruxo” e nome mais algum.

- Morrer na fogueira – continuou, como se pudesse ler a mente do aprendiz. – Certamente é a forma mais dolorosa de se morrer.

Daniel o ficou observando.

- Mas não para um herege. – disse ele.

- Como? – perguntou Daniel.

A carroça chegou perto do cadafalso e os soldados abriram as grades por de trás dela. Havia uma enorme cortina vermelha em volta do palanque, como num circo ou teatro. A Inquisição era um espetáculo a parte.

 - Há muitos instrumentos cruéis para se torturar hereges. Bruxas em especial – disse o mestre para o aluno. – Você ficaria impressionado com a criatividade e engenho para nos torturar, rapaz.

As bruxas foram empurradas para subir ao palanque de madeira. Os xingamentos e os berros se intensificaram. Frutas e repolhos podres foram jogados contra o rosto delas e das crianças. Não havia perdão para heresia.

- Elas sofreram torturas severas na prisão daqueles padres. – analisou Daniel.

- Sem sombra de dúvidas. Vê aqueles buracos na garganta e no peito? – o bruxo apontou com o queixo. – Chama-se gargantilha do herege, um instrumento que prendem em seu pescoço impedindo movimentos bruscos, inclusive falar ou respirar.
Daniel recuou o rosto e mordeu o lábio inferior como se sentisse dor.

- Não se engane, rapaz. Você nem sequer viu um empalamento. Isso não é nada. – riu sem graça alguma.

Em seguida, houve um discurso longo e demorado, a noite vinha chegando. As crianças foram enforcadas, as pessoas bradaram o nome de Deus.

As preparações foram feitas para o espetáculo, era hora da fogueira. As cortinas se abriram.

***

Quando saíram da praça e se embrenharam num beco, Daniel correu à frente sem fôlego pelo terror que assistira.

- Isso é Deus? – questionou horrorizado depois de toda a tortura.

- Não – disse o bruxo. – Isto é Um Deus.

- Deus. Isto é um Deus...

O bruxo fez que sim.

- Prefiro morrer sem ele, então. – foi um trincar de dentes, uma mistura de ódio e pavor.

O bruxo balançou a cabeça.

- Não se pode julgar o que as pessoas fazem em nome de seu Deus – disse o bruxo, tentando explicar. – Não há como apontar as verdadeiras intenções de um Deus pelas ações de seus seguidores e era isso que eu –

- Como é? – interrompeu Daniel abruptamente. – Podemos sim e devemos! Milhares de pessoas estão morrendo em nome Dele. A Igreja é uma Ordem como todas as outras, inclusive como a nossa. Ela responde pelos atos de seus membros. O que é Deus sem seus servos? Ele responde pelos atos deles, sim!

- Não é tão simples.

- E por que não? – houve um momento de resignação por parte do outro. – Se esse é o caso, que Ele responda contra seus fiéis, então. Que Ele desça e diga a todos que estão errados. Isso não é tão difícil, Ele é Deus!

- Não é tão simples. – repetiu o outro.

- Por quê?

Silêncio.

- Por quê?!

- Deus está preso. – disse o bruxo.

Pararam por um momento.

- O quê? Como é?

- Deus está preso, – explicou o bruxo. – Está preso no mundo dele. Assim como nós estamos no nosso.

O outro raciocinou.

- Só há uma forma de encontrá-lo. – disse o bruxo.

- Morrendo. – disse Daniel, elaborando cada palavra.

O bruxo ergueu o rosto.

 – Morremos para passar para o outro lado e ver Deus no mundo dele... – disse Daniel.

O outro balançou a cabeça. O rapaz ergueu uma sobrancelha indagando se estava errado.

- Ou será que é Ele que morre? – perguntou o bruxo – Para vir pra cá.

O rapaz deixou o queixo pender. Uma centelha de curiosidade faiscou-lhe dos olhos.

- Deus já veio para cá?! – exaltou na pergunta. Então corrigiu: – Algum Deus, já veio pro nosso mundo?

O bruxo deixou surgir um sorriso de canto da boca, satisfeito com o aprendiz.

- Mas é claro.

Daniel se entusiasmou.

- Já viu algum?!

- Sim. Este é o significado de ser um bruxo, rapaz. Aprender como vê-los, e vê-los de fato, todos os dias.

O rapaz ergueu o corpo, como se já pudesse pressentir o dia em que enxergaria o primeiro Deus. Já imaginava como seria a forma de um; que perguntas faria se O visse.
- Eu verei um deles, algum dia? – perguntou.

- Certamente que sim.

- Onde posso encontrá-los?! – quase um grito.

Silêncio.

O bruxo cruzou os braços. Tomou por postura rígida e ergueu o queixo, olhando para o garoto de cima. Seriedade de professor prestes a ensinar algo importante; um cuidado firme – as mãos de um médico prestes a cortar artéria com um bisturi.

- Olhe ao redor.

O garoto inspirou fundo e o fez. Virou o rosto com cautela para a esquerda e depois para a direita. O beco escuro e sujo continuava lá e mais ninguém.

- Não vejo nada além de mim e você. – disse.

- Olhe de novo. – falou o bruxo. – Com mais cuidado dessa vez.

O rapaz ficou mirando a seriedade de seu professor. Voltou a fazer o que lhe fora ordenado. Olhou ao redor com cautela observando cada buraco no chão, cada tijolo velho nas paredes e todos os cantos escuros do beco. Não via nada.

Por um instante pensou que ainda não estivesse pronto. A capacidade necessária que seu mestre obtinha para enxergar as formas divinas dos possíveis deuses na Terra talvez ainda não o tivesse agraciado. Mas ouviu de súbito um ruído, tal qual houvesse alguém corrido assustado para um canto que não conseguia enxergar.

Sem pensar duas vezes o rapaz pegou impulso e correu á largas pisadas pelos becos que serpenteavam a cidade.

Ao chegar no final do caminho, viu que perseguia na verdade um menino. Um mendigo que saia da escuridão, indo para as ruas principais do vilarejo.

O rapaz viu as carroças de palha e de estrume sendo puxadas e noutro lado a praça principal, onde havia sido feito o enforcamento e a fogueira.

Plebeus, monges, mendigos e vassalos se juntavam – as mesmas pessoas que horas atrás haviam se agrupado para assistir às torturas e morte que os nobres presenteavam. Daniel ficou estacado.

Poucos segundos depois o bruxo aproximou-se.

- Achou? – disse ele.

- Não – falou o rapaz, desapontado. – Eu me enganei.

O bruxo deixou um leve sorriso escapar.

- Não, você não se enganou.

Daniel o fitou. O bruxo voltou-se para o aluno surpreso.

- Onde estão os deuses? – perguntou.

- Estão ali. – disse o bruxo, apontando com a cabeça para as pessoas agrupadas. – Ali também. Alguns estão naquele canto lá. Estão por toda parte.

- Eles não são deuses – murmurou Daniel. – São pessoas, piores que animais. Lavradores de terra, vassalos, estupradores, bandidos. Nenhum deus.

- Você está enganado, meu rapaz. – disse o bruxo. Daniel o olhou de imediato. – Todos eles são os deuses para quem eles mesmos oram. Deus veio parar nestas terras, e está preso dentro de todos nós.

Tempo.

- Se isso é verdade, então quem responde às preces deles quando oram? – perguntou Daniel, indignado.

- Eles mesmos, oras.

- E como poderiam? – disse. – Se não há deus nenhum que possa atendê-los?!

- Mas eles são, caro Daniel. – o bruxo sorriu. – Quem pede por justiça? Quem ora aos deuses pela morte dos bandidos, estupradores e ladrões?

Daniel não disse nada.

- E quem atende suas preces, Daniel? – levantou uma sobrancelha. – Quem é o carrasco que põem o fogo das fogueiras e puxa a alavanca da forca?

Tempo.

- Somos nós mesmos, rapaz. Não é deus que desce nas nossas terras e enforca, tortura e queima. Somos nós mesmos. Nós pedimos, nós fazemos.

Daniel engoliu em seco.

- E isso é uma magia poderosa, não? – disse o bruxo em um sorriso sombrio e espantoso. – Nós mesmos fazemos os milagres que pedimos.

- Isso é horrível! Deus não existe –

- Está enganado – interrompeu-o com seriedade súbita. – Ele existe; Eles existem. Estão por toda parte. Apenas são poucos os que conseguem enxergar isso.

Silêncio. Daniel sorveu a ideia como um cubo de gelo derretendo em chapa quente.

- Isso é horrível. – disse ele.

- Não, Daniel. É pior. – a resposta veio de um olhar severo. – Deus não está morto, ele está entre a gente, e é cruel.

- Antes fosse só isso, mas ele está entre nós e quer dizer que já não está mais no lugar de onde veio.

Daniel o fitou fundo. O bruxo ergueu o rosto vendo o céu se fechar em escuridão.

- Se ele veio pra cá, para onde iremos quando morrermos?

Cortinas.