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terça-feira, 26 de março de 2013

Formiguinhas – Uma Reflexão sobre Deus, a Vida e Tudo Mais




            Toda vez que penso no grandioso e poderoso Deus e sobre sua existência, a vida após a morte,  não há certeza, claro, mas sim a dúvida. A dúvida que penetra no mais íntimo de nós.  Quando acontece, lembro da menor das criaturas do mundo, as formigas.

Quem nunca assassinou centenas de dezenas de formiguinhas na vida? Aposto que você já se deparou com filas magistrais desses minúsculos insetos, em um movimento expansivo e silencioso sobre a mesa da sua casa.

Quando então você simplesmente agarrou um pedaço de pano úmido e deu fim a centenas de vida logo ali.
Uma vez, quando me deparei nessa mesma situação, dando fim a pequenas vidas em uma enorme quantidade, encontrei-me pensando: e se esses insetos tiverem uma vida que não conhecemos? Uma vida de verdade, organizada, comunicativa e de certo ponto, inteligente, assim como nós.

Peguei-me imaginando noticiários em TVzinhas minúsculas, dizendo sobre a catástrofe do dia a dia para aquelas formigas: Uma enchente no formigueiro, chuva nas estradas do comércio, gigantes destruindo seus caminhos de ponto seguro, um milagre vindo dos céus, chuvas de doces caindo em pontos distantes. Qualquer dia a dia normal e padrão para elas, que no entanto, haviam acabado em tragédia, com a morte de centenas de compatriotas daquela raça, naquele dia.

Uma imaginação fértil e risível, eu sei. Mas e se for QUASE isso? E se, que embora em escala menor do que a nossa, as formigas  e – e não só elas como outros insetos – tivessem uma VIDA consciente assim como nós?

O que aconteceria depois que uma formiga morresse? Para onde ela iria?O que acontece com sua consciência, com sua existência. Sua essência?

O que acontece, quando tantas morrem?

E morrem.

Todos os dias, milhares e milhares desaparecem num piscar de olhos. É tão, mas tão fácil para nós, tirar a vida desses pequenos insetos... Podemos fazer isso de trilhões de formas. E continua sendo fácil. Fácil demais, pra uma criatura que deveria ter sua função especial na natureza. No universo.

Quando você assassina uma multidão de 100 formigas que andavam sobre sua mesa, o que acontece com elas depois disso?

Será que formigas tem seu espaço no céu, ou em outro plano espiritual? Um lugarzinho guardado só para os animais, ou só para as formigas, quem sabe?

Será que elas reencarnam? Vivem em um ciclo sem fim de morte e depois de renascimento em outro corpo. Corpo de formiga ou corpo de outro animal?

Não sei.

E sinceramente, entro em um delírio temeroso, um medo muito grande por não saber. Medo, na verdade, por ter quase a resposta na ponta da língua...

Ao mesmo tempo, pensar que suas vidinhas acabariam para SEMPRE ali, de forma injusta, é uma possibilidade que minha pobre mente humana primitiva não consegue aceitar. Todos nós – ou melhor, quase todos – não PODEMOS acreditar que nossas vidas só existem NESTE momento, e depois, puff... acabou.
É cruel e impensável. Insensível demais. Terrível demais.

O fato é que não sabemos o que acontece com elas. Nunca saberemos. Não enquanto ainda estivermos por aqui. Ou talvez nem quando estivermos do outro lado. Isso se existir um outro lado.

Não sabemos o que acontece a nós mesmo nem sequer NESSA vida, imagina numa próxima. E continuaremos a ficar sem saber.

Custo a pensar, a querer pensar, que a reencarnação não existe. Não quero acreditar.

Pois isso destrói com o meu pensamento humano e egoísta de que minha presença neste mundo, nessa época atual, vale alguma coisa. Qual seria o verdadeiro SENTIDO da vida, se eu já tivesse nascido muitas outras vezes? Qual seria o sentido de sequer UMA existência minha, se eu irei nascer em OUTRAS vezes daqui uns anos? Não, não consigo e não posso aceitar.

Não sei. Não sabemos.

Por outro lado, essa pequena reflexão sobre EXISTENCIA, me faz perceber acima de tudo o PODER. E que por mais cruel que seja, me faz ter a certeza sobre a existência de Deus.

Se nós, humanos, falhos, triviais, e desumanos que somos – sim, entenda a ironia – temos o PODER de destruir tantas vidas, não só as nossas próprias como a de outros seres, como a de centenas, a capacidade de exterminar centenas de milhares de formiguinhas e outros insetos com essa facilidade inadmissível... então, em algum lugar no universo, se não em todo nele, existe, ou existem, algo que seja capaz do mesmo conosco.

A capacidade de destruir galáxias inteiras, a de exterminar estrelas. Milhões delas, centenas de milhares, a milhares de dezenas delas.

Assim como também, o poder, mais fácil e indescritível ainda, de criar.

Não sabemos. Não podemos entender, comprender ou afirmar. Não enquanto estivermos aqui. Não enquanto não o vermos.

Continuemos, então, a sermos apenas uma porção de formiguinhas. 

Christian Vinharski

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Devaneios de um Escritor




            Existem muitas armas que podem matar o ser humano. Existem muitas formas de ferir um atleta. Mas nada – repito: nada – mata um artista, um escritor, como a preguiça e a ansiedade demasiada.

Primeiro, a preguiça me dominou. Depois, o tempo me consumiu. Daí eu já não conseguia mais escrever coisa alguma.

Não me impediu de ter ideias boas, mas impeliu-me de colocá-las em prática, de transformá-las em algo.

E isso era o mais importante.

Escrever é ser solícito. Alguma coisa que existe dentro de você, simplesmente pede e você faz.

Às vezes não lhe é preciso nem de ideias, planejamento ou outra coisa qualquer, só coragem. O começo de uma pequena fagulha de inspiração, sentando na cadeira com altivez para encarar os pecados que estarão por vir à primeira página.

Começando desse ponto de partida, você consegue seguir em frente, preenchendo o mundo vácuo, sem espaço e altura. Sem limites.

Sobre todas as outras coisas, o ato de escrever é sobre ser corajoso. Muito mais do que na vida real. Nem sempre precisamos ter uma ideia fenomenal, um lampejo divino – as mãos tremem de repente, seu corpo estremece e o coração tropeça por alguns instantes – essas coisas.

Não.

Você não precisa ser o dono de uma obra de arte. Precisa ter coragem. Muito dela.

E quando se sentir mostrando-se de corpo e alma ao mundo, despindo-se sem pudor das regras que o regem, você vai estar se apresentando ao universo da mesma forma que veio a ele: sem ideias engrenadas e raciocínios engatilhados. Você cai ao chão exausto, corpo livre e solto, pálido de todas as coisas que despejou para fora. Você se encontra deitado e estático como uma folha branca de papel.

Após o momento de coragem que se apresentou altivamente ao mundo, o escritor se acovarda.

Aguardamos durante semanas. Meses. Lemos, cortamos, remexemos – editamos o texto ao nosso gosto. Depois passamos o texto para conhecidos lerem. De preferência àqueles que compartilham do mesmo sentimento, que tivemos no momento de escrever. Então recebemos os elogios e as críticas.

Ah sim, claro, as críticas. Muito, muito importantes.

Seja parabenizado; ouça todos lhe dizerem sobre o seu argumento e expressarem suas opiniões. Alegre-se e se inspire. Tome as críticas como partida para melhorar. No dia seguinte, não pense. Vá, e escreva. Sem decorrência.

Feito? Então esqueça-se dos elogios, eles não valem mais de nada. Não para você.

Não serão eles a trazer experiência. Irão te fortalecer e impulsioná-lo ao próximo passo: melhorar. Mas não transformarão você em algo melhor. As críticas fazem isso.

Então escreva.

Coragem. Reedite o texto, releia, corte, preencha. Coragem.

Mostre para outras pessoas desta vez. Repita o processo, cada vez mais e mais intenso.

Mostre a todos. Não só há um grupo de pessoas.

Á todos.

Pois o ato de escrever nem sempre é sólido, nem sempre partirá de uma ideia e história inteira a se contar.

Às vezes, começamos apenas do pressuposto de se ter uma pequena premissa e a coragem o suficiente para iniciá-la. Dar-lhe vida.

Como foi este texto aqui.


Christian Vinharski