terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 4 (Final)

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                A sala era grande, alta e redonda. A iluminação alva da lua provinha do teto circular aberto ao ar livre, e ao longo das paredes, sete estátuas de mármore cheia de veios representavam figuras endiabradas com garras, chifres e dentes protuberantes; paralisadas numa alegoria dos pecados mortais. O chão liso era entrecortado por reentrâncias  na rocha, formando um pentagrama meticulosamente esculpido.


                Um homem tatuado e uma mulher de aparência jovem jaziam na sala de joelhos e braços amarrados para trás, esperando àqueles que seriam seus carrascos. Simion notou que possuíam no semblante uma expressão desprovida de esperança; estavam desgarrados de suas vidas como gado ao aguardo do matadouro.

                Resignação, foi a palavra que lhe veio a cabeça.

                — Agora em suas posições. — falou Hiraeth, depois de cada um puxar dos bolsos os componentes obrigatórios do ritual.

                Os sacerdotes negros, Illith e Urungoy, caminharam até os dois humanos e arrastaram-nos pelo enorme pentagrama no chão. Houve um resquício de resistência por parte da mulher que Illith puxara, mas que foi rapidamente aquietada numa bofetada.

                Ao todo eram seis, e cada um estava prostrado numa ponta cardeal baseada nos vértices da estrela. Empunhando os componentes mágicos, Hiraeth começou o louvor, logo depois sustentada por uma cantiga macabra entoadas por Urungoy e Illith. Não demorou muito para que chegasse a vez de Simion, que ergueu os braços e proferiu as palavras em uníssono.

                O elfo púrpura já havia se encontrado ali antes, naquela mesma situação perniciosa, e quando minutos depois do início do ritual o céu começou a lançar correntes de vento atroz, arrancando árvores do chão, anunciando uma tempestade com os clarões por de trás das nuvens carregadas, Simion soube que estava próximo.

                — Agora! — gritou Hiraeth, e todos eles puxaram um punhal prateado contra o vendaval. Os três bruxos sangraram os próprios pulsos, largando os componentes ao chão. O pentagrama foi tomada por uma aura de luz sombria e um ruído estranho no céu fez a espinha de Simion gelar.

                Illith foi o primeiro, caminhando até a mulher ajoelhada, seguindo a aresta do desenho geométrico. Girou por de trás dela, e num puxão, ergueu seu rosto em direção ao céu tempestuoso.

                — Sangue jovem por libido inacabável! — gritou.

                 A faca encontrou o pescoço da menina, rasgando-lhe a pele fora a fora. Um jorro incontido de sangue banhou o desenho no chão. O corpo da garota caiu mole, a luz negra assimilando suas voltas.

                "Ainda não", lamentou Simion, entre dentes. "Ainda não é  hora".

                Em seguida marchou Urungoy. Equilibrando-se pela linha reta chegou até o homem do outro lado da sala; agarrou-o pela nuca.

                — Sangue mágico, por domínio arcano. — e rasgou-lhe a traqueia.

                Ouviu-se um trovão lá no alto no mesmo instante que o vermelho esguichou do pescoço para frente. As nuvens do céu, escuras e pesadas como chumbo, já haviam escondido o luar na tempestade. Lá fora, as árvores lutavam para se manter no chão, as raízes estalando sob o solo.

                Hiraeth puxou a joia e a ergueu para o centro do pentagrama, Simion fitou seu coração amaldiçoado nas mãos da mulher.

                — A vida esculpida, por uma juventude longeva! — disse ela, e antes que pudesse qualquer coisa, Simion sacou uma faca escondida e cortou o pulso, derramando seu sangue púrpura no desenho.

                — Não! — gritou Illith.

                Houve um segundo de exasperação.

                — O que está fazendo, idiota?! — Urungoy arguiu.

                O elfo mostrou os dentes.

                — Façamos uso do sacrifício de vocês... com um pedido de verdade. — disse olhando para Hiraeth que mantinha o olhar paralisado nos dele. Ela tentou se mover para continuar o ritual, mas trincou os olhos ao perceber que estava petrificada em sua posição, as mãos erguidas a frente segurando a joia. Os outros dois repetiram a intenção e não obtiveram sucesso.

                "Como as estátuas da sala". — o elfo deu uma risada sarcástica.

                — Simion... O que você vai... — a pergunta de Hiraeth ficou no ar. O elfo púrpura sentiu o aperto sobrenatural no peito, algo o forçando a desistir.

                — Vai prender nossas almas no limbo, imbecil, você não tem nada a oferecer — urrou Urungoy.

                — Errado. — disse ríspido.

                Simion partiu ágil, sobre a linha que ligava o cardeal a Urungoy e, num instante, estava sobre ele.

                — Eu tenho vidas. A vidas de todos vocês.

                Antes que o contrariasse, a faca do elfo assobiou no ar e foi de encontro ao pomo de adão do homem. Um barulho nojento vazou no canto da lâmina junto com incontáveis filetes de sangue, e então o elfo puxou a arma para si. O corpo do brutamontes tombou pesado.

                — NÃO! — Illith exasperou, tentando se mover. Simion atravessou a sala como um raio sob as arestas e chegou até ele, gracioso.

                — Por favor, eu —

                Corte.

                O corpo do segundo caiu, num instante, mole.

                Hiraeth mexeu os olhos como pôde, mirando Simion com uma expressão de pavor, temendo ser sua hora.

                — Simion... — gaguejou — Por que me traiu?

                O elfo sabia que não havia tempo, e um relâmpago o lembrou disso quando arranhou as nuvens com um ruído tremendo.

                — Eu não seria capaz disso — Simion murmurou com a voz abafada — Só que estou cansado. Cansado de sofrer, Hiraeth — e se aproximou.

                Lágrimas brotaram dos olhos da mulher.

                — Então me mate. Acabe com esse desespero — Hiraeth soluçou. — Acabe com isso, me mate...

                Simion enxergou o sofrimento nos olhos da mulher. Seus segredos sombrios lhe saltaram na memória no instante que avistou a joia; assim como ela antes havia lhe entregado as verdades de Hiraeth, no simples toque. Se perguntou se a maldição havia lhe desgraçado, tanto quanto ele a amada. A pedra não só o corrompeu, percebera. Numa outra vida tudo teria sido diferente, quem sabe?

                O suor nas mãos de Simion escorregavam o cabo da faca.

                — MATE-ME! — Hiraeth berrou.

                Um estrondo maciço ecoou na parte do paredão da montanha ao lado, um rochedo tão enorme quanto um navio se desprendeu mergulhando no precipício.

                Simion sorriu.

                — Eu não posso.

                O elfo girou a ponta da arma para si, fincou-a no ventre sem cerimônias. Abriu a pele lilás num puxão de baixo a cima, da barriga ao pescoço. Hiraeth gritou, a visão do elfo pesando. Uma onda de sensações indescritíveis subjugou o que restara dos sentidos; tato, visão, olfato, paladar, audição... Tudo se desligou. Simion piscou com a última imagem à sua frente: Hiraeth.

                Escuridão.

* * * * *

                Quando anos depois uma carroça atravessou uma estradinha esburacada e ladeada por milharais e outras plantações de trigo, os camponeses da cidade de Portfeld responderam as perguntas do cocheiro apontando para o vilarejo que permeava o redor do castelo.

                — E o que aconteceu no final? — perguntou uma garotinha de cabelos em caracóis.

                Uma procissão de crianças estavam sentadas a beira do lago que abastecia o vilarejo, impressionadas, queriam saber o final da história dramática cheia de magia negra e mistérios.

                — Bem — disse a menina em pé, com os joelhos brancos ralados da infância, e o vermelho vivo do cabelo dançando arredio na brisa leve. — Acontece o que acontece como nas outras histórias. Eles vivem felizes para sempre.

                — Ahh, bobagem! — reclamou um menino do fundo. — Hiraeth não sabe terminar a história e não teve coragem de dizer o que acontece com eles no final...

                As crianças olharam para ele.

                — O quê?

                — Eles morrem, é claro. — ele disse encolhendo os ombros. Um burburinho entre eles começou, alguns retorcendo o rosto para aquilo.

                — Eu prefiro acreditar no final da Hiraeth — disse uma garotinha de olhos azuis e sardas no rosto — É muito mais bonito.

                — Pft... — reprovou o garoto. — Mas histórias assim não acontecem de verdade. Vamos, eu prefiro brincar de cavaleiro contra o ladrão!

                As crianças levantaram e correram rapidamente se espalhando no vilarejo, pegando pedaços de pau e galhos no chão, improvisando-os como armas de brinquedo. Hiraeth ficou sozinha na beira do lago. Seu olhar voltou-se para água enquanto correu os delicados dedos até o relicário que tinha no pescoço; uma pedrinha vermelha presa num cordel.

                Um cavalo relinchou, anunciando uma carroça que acabara de frear no meio do vilarejo. Distante em seus pensamentos, Hiraeth não percebeu quando passos se aproximaram dela e estacou próximo.

                — Ei, menina de cabelos vermelhos

                A garota se virou. Era um jovem, oito ou nove anos, assim como ela. Cabelos negros e escorridos possuía um semblante calmo e bonito. Hiraeth apertou a joia, escondendo-a — não a mostraria para ninguém. Sob o olhar atento do rapaz, ele sorriu.

                — Você também tem não é? As visões... — ele remexeu os bolsos e tirou uma lasca de pedra vermelha, semelhante com a dela, estendeu em sua direção, mostrando. — Veja. Eu também posso ver... As pessoas, as visões...

                Hiraeth pendeu a boca, não acreditara naquilo. Achara desde cedo que havia nascido com alguma maldição; sonhos de bruxa? Era perigoso demais.

                — Eu também tinha medo no começo — ele disse — Mas depois entendi o que significa, a pedra me contava uma história... Me trouxe até aqui.

                Ela compreendeu.

                — Qual é o seu nome?

                — Hiraeth... — disse num tom inseguro. Ele sorriu, e ela retribui o mesmo. Algo no peito do jovem se mexeu. — E você?

                O menino olhou para trás, o cocheiro, o homem de cabelos negros e azulados que o adotara desde cedo, estava certo quando o aconselhava sobre as visões: Bielefeld era o reino da cavalaria, dos heróis e da nobreza. Mas também era o reino das verdades e da bondade pura. Tudo que havia de acontecer, era porque era justo.

                O rapaz voltou-se para a jovem ruiva e sorriu.

                — Me chamo Simion.

                As duas joias ascenderam.

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~ Christian Vinharski

domingo, 4 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 3 (penúltimo)

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                Já era noite silenciosa quando os cavalos de Simion e Hiraeth anunciaram sua chegada, partindo um galho seco, provocando um estalar agudo. Avistaram a silhueta dos dois anfitriões que os esperavam — ambos se levantaram ao mesmo tempo na chegada dos visitantes. Ao lado deles havia uma gruta aquinhoada a um paredão de rocha escarpada, a montanha alta.

                — Illith e Urungoy — pronunciou Hiraeth quando aproximou o cavalo dos dois. Ambos fizeram uma mesura rígida e depois repetiram o movimento à Simion. O elfo os observou através da penumbra e forçou-se a não retorcer o rosto em desprezo. Os dois não haviam apenas atraído o asco de Simion como também seu ódio. Se havia seres mais desprezíveis que àqueles dois, o elfo ainda não conhecera em vida.

                O bruxo a que chamavam de Illith, estava sob uma capa de um veludo azul desbotado e empapado de sangue seco, indicando o carniceiro, que Simion sabia, que ele era. O capuz maltrapilho sobre a cabeça ajudava a esconder os cabelos ralos e esburacados, que compunham a figura simiesca que era seu rosto. Um dos olhos possuía uma cicatriz grotesca que há muito havia lhe tirado a visão e em troca deixado o olho leitoso. Simion imaginava quão desgraçado havia sido a falha daquele ataque — não concedia perdão à quem não havia arrancado a vida do maldito. Já Urungoy era mais alto e encorpado, escondendo o peito largo e deformado por debaixo da túnica negra. Assim como o outro, abrigava o rosto por de baixo de uma toca, mas o queixo protuberante elevava-se para frente revelando os dentes tortos, paralisados no sorriso sínico e maldoso da expressão ordinária. As manzorras cheia de calos e pústulas sugeriam à Simion que o homem fosse capaz de torcer o pescoço de um cavalo apenas com força bruta. Não importava.

                Aquilo logo teria um fim.

                Simion apeou do cavalo e aproximou-se de Hiraeth ajudando-a desmontar. Illith aproximou-se dos dois com as mãos juntas.

                — O local está todo pronto, armamos o terreno conforme a posição do luar — veio sua voz arranhada.

                — Ótimo. — disse Hiraeth. — Qual será o serviço prestado no ritual de vocês?

                O elfo viu a cicatriz do homem se retrair junto ao rosto de alegria antecipada enquanto movia suas mãos freneticamente, limpando algo invisível como um mosca.

                — A juventude de uma moça — respondeu ansioso.

                — O sangue de um abençoado. — disse Urungoy, logo atrás.

                Sem querer saber o que ganhariam em troca, Simion achou ambas respostas suficientes para ganhar sua aversão. Aparentemente Hiraeth também não quis saber.

                — Sem mais atrasos, vamos logo. — ela ordenou.

                Os quatro entraram pela caverna lodosa, arrastando os cavalos sob o protesto dos mesmos — os animais sentiam o ar hostil, viam que àquele lugar tinha algo de errado. Sob os relinchos langorosos, foram levados até uma baia improvisada que havia no caminho. Uma vez amarrados, Simion, Hiraeth, Illith e Urungoy se colocaram a caminhar subindo uma rampa natural da gruta, num aclive escorregadio, até se depararem com uma porta de madeira e bronze, ladeada por dois pedestais de archote com figuras demoníacas esculpidas na base.

                Hiraeth tomou a frente, ergue as mãos na direção da porta e entoou palavras ininteligíveis. Ouviu-se um estampido sinistro do outro lado da parede e então a porta destrancou.

                — É hora. — proclamou Hiraeth. E entraram.

sábado, 3 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 2

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                Ele estava acorrentado à Hiraeth. A cada passo que se distanciava, as correntes enrijeciam puxando-o para trás. Como se libertar de alguém que tinha como algema seu próprio coração?

                Do alto de uma árvore, o elfo observou o sol ainda baixo sobre as montanhas no horizonte, ascendendo o dia ao longo que cobria os campos de capim além da visão do reino de Bielefeld. As cenas pesarosas da noite anterior visitavam sua mente repetidas vezes, importunas como uma lembrança descartável que insistia em fazer parte da memória rotineira.

                Lembranças.

                Os elfos púrpuras eram nômades ávidos, vivendo numa caravana insistente pelo mundo de Arton. Não se sabia ao certo de onde vieram e há quantos séculos surgiram, mas era claro que não haviam conseguido achar o seu lugar. A raça de pele roxa e cabelo congênere estabelecia-se pouco tempo em um território — menos ainda era seu contato com os demais povos do Reinado, na maioria das vezes sendo apenas fábulas misteriosas contadas à crianças incautas e que eram feitas de troça pelos elfos de Lenórienn. Mas um segredo ainda mais enigmático se ocultava em sua existência. Atingida a maturidade de um elfo púrpura, seu coração transformava-se em uma joia, que uma vez palpável, devia ser guardada em silêncio ou entregue à uma pessoa de confiança que a assegurasse. Caso caísse em mãos erradas, o elfo teria sua vida comprometida a uma eternidade de escravidão aos desejos de seu dono, possuidor do poder de sua existência.

                Quando Simion completara cem anos de sua vida longeva, seu pai, líder da caravana de seu povo, honrou seu nome com um casamento prometido a filha de um de seus compatriotas. Os elfos púrpuras mantinham a tradição rígida de casar-se entre si para que seus segredos não esvaíssem ao mundo, mas Simion relutou contra a ideia. Depois de meses de tormento, o rapaz revelou que havia sido desperto. Uma vez que o elfo púrpura tinha de presentear seus coração a uma alma segura, a paixão dele era eterna. Um elfo da raça nunca seria capaz de amar outra pessoa, uma vez que esse sentimento fosse despertado em seu íntimo. E Simion havia se apaixonado por uma humana.

                Tomado pelo sentimento de rebeldia, e motivado pela fúria de seu pai e os protestos de seu povo, Simion fugiu com a joia em mãos, viajando ainda madrugada, para entregar o presente à Hiraeth, a humana que havia sido a responsável pelo seu amor. Ela por outra vez, era uma itinerante que há meses havia cruzado seu caminho. Feita de beleza e cabelos de fogo, a menina correspondera sua paixão; Simion só não poderia saber que o resto da história seria sofrimento, Hiraeth também possuía segredos ocultos.

                — Está na hora. — a voz veio de baixo da árvore. O elfo despertou de seus devaneios quando viu a bruxa aproximando-se, vestia uma túnica verde escura que se escondia por de baixo de uma capa cinzenta e de tecido grosso que se arrastava ao chão pelo caminho feito. A mulher escondia o rosto sob o capuz.

                — Hora de quê? — perguntou Simion intrigado. Saltou da árvore e caiu ao seu lado, analisando o rosto de Hiraeth com cautela.

                — Você se esqueceu? — ela ergueu a mão e tocou seu rosto — Não o culpo, ontem foi uma noite difícil e dolorosa, como está se sentindo?

                Simion fechou os olhos enquanto se amaldiçoava por amá-la. Era algo além de seu controle, que desfalecia os pensamentos de ódio, vingança, bastava um toque.

                Ele fez que sim com a cabeça. E depois:

                — Para onde vamos?

                — O ritual — ela disse. Simion gelou por dentro.  Lembrou-se do dia que era do mês, sua mente estava em frangalhos depois das torturas que sofrera. Os olhos de Hiraeth  faiscaram quando pareceu notou interesse no semblante do elfo. — Espero que tenha pego tudo que lhe pedi.

                — Tudo — confirmou. — Apenas não havia me lembrado que era hoje

                — Amanhã — ela lhe corrigiu e então abaixou o braço. — Mas viajaremos hoje, temos de estar no terreno à meia-noite.

                — Pegarei os objetos arcanos.

                Ela sorriu.

                — Eu te amo. — disse.

* * * * *

                Quando guardou o último utensílio na bolsa de componentes, um par de asas de morcego amarrados em uma fita feita raiz, Simion deixou escapar uma lágrima de desespero e socou a parede. Seu coração encontrava-se escuro, sua alma pesada. Os dois iriam juntos para o inferno. A joia que era seu coração podia não ser mágica, mas carregava dentro de si a imortalidade de sua raça. Hiraeth era uma humana, enquanto ele um ser de vida longa. Quando a mulher tocara no relicário pela primeira vez, Simion pôde provar da sensação que os mais velhos de seu povo descreviam: os sentimentos daquele que segurava a joia eram partilhados pelo seu dono, ambos se tornavam um, o elfo conheceu as sombras mais obscuras do passado de Hiraeth, e naquele momento descobrira que era uma bruxa.

                Ela o convenceu de que esse fato poderia ser facilmente ignorado se fosse amor verdadeiro, e ele se forçou a acreditar nisso por um tempo. Mas Hiraeth era uma mortal de vida curta, e quando o primeiro mês de lua cheia surgiu, ela lançou sobre a joia uma maldição. A vida do elfo seria drenada toda lua completa de cada meses, reduzindo sua longevidade e dando juventude à alma de Hiraeth. Os dois viveriam a mesma quantidade de dias de vida, os mesmos meses, os mesmo anos. Morreriam juntos.



                Simion carregou os equipamentos do ritual para fora, montando no cavalo junto à mulher e partindo em viagem. Trincou os dentes se amaldiçoando por àquilo. Ele sabia para onde estavam indo, e sabia como dar fim a seu sofrimento. Que fosse rápido, trair Hiraeth ficava mais difícil à cada hora. E se não o fizesse nesse mês, talvez fosse tarde demais.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Veneno de Minha Alma - Parte 1


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                Naquela silenciosa noite, Simion grunhiu entre dentes quando sentiu a fisgada no peito mais uma vez. Parou de caminhar pelo extenso corredor da casa de madeira e tombou o corpo trêmulo para o lado, apoiando-se numa das paredes e ficando próximo à janela que deixava a luz prateada entrar.

                — Sempre na lua cheia — reclamou entre dentes — Como pude me esquecer?

                Simion se perguntou o por que daquilo tudo, e o propósito de seu sofrimento.  Nenhum homem devia sofrer por tomar decisões como as dele. Talvez seu povo fosse de fato amaldiçoado; os elfos púrpuras consideravam-se puros e perfeitos, primogênitos entre seus irmãos raciais; mas que outro elfo no mundo era torturado pelo simples fato de amar?

                No meio de seus devaneios, sentiu de novo a estocada em seu peito, mais forte e voraz. Estremeceu uma das pernas caindo com os joelhos ao chão, e resistiu à dor com os punhos serrilhados, enterrando as unhas na palma da mão. Quando amenizou, voltou a se levantar e esquadrinhou o corredor da casa sob o protestar do chão de madeira rangendo. Levou uma eternidade até ganhar a porta dupla de carvalho escuro no final do caminho.

                Quando a abriu, viu Hiraeth sentada em um cama grande de frente para a porta, com as pernas cruzadas e um de seus braços apoiados sobre a coxa do vestido branco, segurando algo que brilhava intenso, mas abafado pelas duas mãos. Os longos cabelos vermelhos de fogo atenuavam a beleza invejável, e fez com que Simion pensasse mais uma vez que não tinha como saber quando a conhecera: jamais em sonho alguém deduziria que ela fosse uma bruxa.

                — Eu sei que dói — a mulher murmurou enquanto fitava os olhos amendoados ao elfo — Por isso o chamei, sei que dói, e sei que é por minha culpa... — àquele tom de voz culposo, teria feito Simion perdoá-la de imediato, se não fosse a primeira vez que aquilo acontecia.

                — Então pare — respondeu ele, olhando para ela e o que carregava nas mãos — Basta que você —

                Uma dor estrondosa atravessou seu corpo de súbito e impediu que o elfo continuasse. Suas costas contorceram e ele caiu ao chão sem fôlego. Hiraeth continuava imóvel, olhando-o do alto da cama com um semblante que indicava um misto de tristeza e dó.

                — Eu sei, mas não posso — disse ela complacente  — Somos como um agora, meu bem.  Você me tem, eu o tenho — ela sorriu. — As dores são necessárias às vezes, nos tornam mais fortes.

                — Como pode dizer isso — praguejou Simion no chão, a falta de ar lhe dominando a garganta seca — Sendo que só eu é quem sofro?!

                Hiraeth fechou os olhos numa expressão negativa e apertou a luz da palma das mãos, a dor de Simion rompeu dessa vez com um estrondoso ganido de sofrimento. O elfo caiu mole no chão. Depois disso, silêncio.

                A mulher se levantou da cama, e caminhou pelo tapete vermelho ornamentado em linhos de ouro e parou de pé ao seu lado. Abriu as mãos e viu que a joia que segurava parava de brilhar. Olhou por uma das enormes janelas envidraçadas do quarto e viu que a lua se escondia por de trás de uma nuvem preguiçosa no céu.

                — Está feito. —ela disse.

                Simion estava estagnado, jogado ao chão de braços abertos e olhos vidrados mirando o teto, um retrato dos últimos segundos do pesadelo que lhe engolfara.

                — Já pode parar de reclamar, meu amor — disse Hiraeth — A dor já passou e não volta mais. Não neste mês— mais um sorriso, genuíno. Ela agachou ao seu lado, mostrando a joia vermelha, admirando-a e compartilhando sua conquista com ele. Estava convicta de que, assim com ela, Simion apreciava o tesouro. — Poucos são como nós, querido. Poucos podem ter tanto. A dor é passageira, mas o poder... Ele dura para sempre.

                 Hiraeth beijou carinhosamente seus lábios e Simion, pôde sentir a joia pulsar nas mãos da bruxa no mesmo instante que algo em seu peito se remexeu. Ela se levantou e partiu, deixando-o largado no tapete até que o tempo lhe recuperasse.

                Era sempre assim: uma vez por mês, nas noites de lua cheia. A dor, as lembranças, os arrependimentos.

                Horas depois o elfo se levantou, como nas outras vezes, sozinho e em silencio. Os fantasmas de seus pensamentos o assombraram no escuro.  A dor não era só física. Os deuses o puniam. Ele fora desgraçado pois decidiu que nessa vida amaria uma bruxa.

                Caminhou até uma das janelas, olhando para nada em especial.

                "Tem de ser feito", pensou Simion. A joia já estava escura como sangue, talvez não durasse mais um ou dois meses. Havia feito de tudo para não ter de tomar àquela decisão, mas agora não lhe restava mais opção alguma. O mundo se devastava sob seus pés como se o chão fosse de vidro.

                Simion tinha de matar Hiraeth.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Dicas de Neil Gaiman para quem quer ser um escritor



Se você ainda não conhece Neil Gaiman, pare por aqui. Vá até o Google e dá uma breve pesquisada - afinal foda é o menor dos títulos do cara, e uma "googleada" é o mínimo aceitável pela sociedade em pleno século XXI. Ou simplesmente volta algumas publicações minhas e dá uma olhada na breve descrição que fiz sobre o autor em um discurso que o dito cujo fez.

Enfim, fiquem com as palavras do sábio The chosen fucking one


IDEIAS E RASCUNHOS

Para mim, [escrever] sempre foi um processo de tentar me convencer de que o que estou fazendo no primeiro rascunho não é importante. Eu me lembro da sensação de liberdade incrível quando deixei de usar uma máquina de escrever e passei a usar um computador porque eu não estava mais criando pilhas de papel. Era apenas especulação, imaginação. Eu estava escrevendo essas palavras mas elas não tinham importância.
Então uma década depois eu me lembro da sensação de liberdade novamente quando pensei “eu posso escrever em blocos de anotações”. [O texto] não parecia real até que eu digitasse no computador. E uma das coisas que ainda faço é escrever em bloco de notas.  Eu simplesmente escrevo a mão porque não é real.

Uma forma de ultrapassar o bloqueio de escritor é se convencendo que não importa, ninguém nunca verá seu primeiro rascunho. Ninguém se importa com seu primeiro rascunho. Talvez seja isso que esteja te agonizando tanto, mas honestamente, o que quer que você esteja fazendo pode ser consertado. Você pode consertar amanhã, na semana seguinte. Por agora, simplesmente coloque as palavras para fora da sua cabeça, apenas registre a história da forma como você conseguir e então conserte ela depois.

INSPIRAÇÃO

Se você só escreve quando está inspirado, talvez você seja um bom poeta, mas você nunca será um romancista, porque você precisa atingir sua meta de palavras a  cada dia. E essas palavras não vão esperar que você decida se está inspirado ou não.
Então você deve escrever quando não está inspirado. E você tem que escrever as cenas que não inspiram você.

E o mais estranho é que 6 meses ou 1 ano mais tarde você vai olhar para elas e não vai se lembrar quais cenas escreveu porque estava inspirado ou simplesmente escreveu porque era a cena seguinte da história.

PROCESSO

O processo de escrita pode ser mágico. Há momentos em que você dá um passo para fora da janela e caminha no ar e é uma felicidade extrema. Acima de tudo, é um processo de colocar uma palavra após a outra.

Na Inglaterra e na Escócia, existem pessoas que fazem muros de pedras seca. E eles tem feito muros de pedra seca por gerações. E eles fazem esses muros com varias pedras. Eles colocam uma, depois colocam outra que se encaixa, e mais outra que se encaixa… eles sabem o que fazer. E de alguma forma eles criam esses muros que são absolutamente estáveis. Simplesmente colocando uma pedra após a outra e eventualmente você tem um muro.

E é assim que você cria uma história. Você coloca uma palavra depois da outra e depois você repete.

GÊNEROS

Quando as pessoas me dizem “eu quero ser um escritor, o que preciso fazer?”, e eu digo “você tem que escrever”. As vezes elas me dizem “eu já estou fazendo isso, o que mais preciso fazer?” e eu digo “você tem que terminar seus textos”. É assim que você aprende. Você aprende terminando textos.

Exitem outros conselhos, tem tantos conselhos que se pode dar a para escritores iniciantes, particularmente para escritores que querem trabalhar com determinados gêneros. Leia o gênero que você quer escrever para ver o que outros escritores estão fazendo. Depois, leia fora da sua zona de conforto. Se você ama um certo tipo de filme e você quer fazer triller de ação para Hollywood , assista outros tipos de filme. Assista a documentários. Conheça outras referências, encontre tudo que você puder.

Se você gosta de livros e você gosta de fantasia, e você quer ser o próximo Tolkien não leia apenas fantasias parecidas com as histórias de Tolkien. O Tolkien não leu fantasias parecidas com as histórias de Tolkien. Ele leu livros em finologia finlandesa. Você deve ler fora da sua zona de conforto, vai aprender sobre coisas diferentes.

ESTILO

E o [conselho] mais importante para qualquer pessoa que atinge um certo nível de qualidade [...] é conte sua história. Não tente contar as histórias que outras pessoas podem contar.
Porque qualquer escritor iniciante vai começar escrevendo com as vozes de outras pessoas. Você vem lendo outras pessoas por anos, você vai contar as coisas que você vem fazendo, mas assim que possível, comece a contar as histórias que só você pode contar. Porque sempre vão haver escritores melhores que você, mais inteligentes que você. E sempre vão existir escritores melhores nisso ou naquilo.

Mas você é o único você.  Tem escritores melhores que eu por aí, existem escritores mais inteligentes, pessoas que conseguem criar enredos melhores, etc, mas não existe ninguém que consegue escrever uma história do Neil Gaiman como eu.

[...]

( Tradução livre; texto retirado do site Ficção em Tópicos )

terça-feira, 26 de março de 2013

Formiguinhas – Uma Reflexão sobre Deus, a Vida e Tudo Mais




            Toda vez que penso no grandioso e poderoso Deus e sobre sua existência, a vida após a morte,  não há certeza, claro, mas sim a dúvida. A dúvida que penetra no mais íntimo de nós.  Quando acontece, lembro da menor das criaturas do mundo, as formigas.

Quem nunca assassinou centenas de dezenas de formiguinhas na vida? Aposto que você já se deparou com filas magistrais desses minúsculos insetos, em um movimento expansivo e silencioso sobre a mesa da sua casa.

Quando então você simplesmente agarrou um pedaço de pano úmido e deu fim a centenas de vida logo ali.
Uma vez, quando me deparei nessa mesma situação, dando fim a pequenas vidas em uma enorme quantidade, encontrei-me pensando: e se esses insetos tiverem uma vida que não conhecemos? Uma vida de verdade, organizada, comunicativa e de certo ponto, inteligente, assim como nós.

Peguei-me imaginando noticiários em TVzinhas minúsculas, dizendo sobre a catástrofe do dia a dia para aquelas formigas: Uma enchente no formigueiro, chuva nas estradas do comércio, gigantes destruindo seus caminhos de ponto seguro, um milagre vindo dos céus, chuvas de doces caindo em pontos distantes. Qualquer dia a dia normal e padrão para elas, que no entanto, haviam acabado em tragédia, com a morte de centenas de compatriotas daquela raça, naquele dia.

Uma imaginação fértil e risível, eu sei. Mas e se for QUASE isso? E se, que embora em escala menor do que a nossa, as formigas  e – e não só elas como outros insetos – tivessem uma VIDA consciente assim como nós?

O que aconteceria depois que uma formiga morresse? Para onde ela iria?O que acontece com sua consciência, com sua existência. Sua essência?

O que acontece, quando tantas morrem?

E morrem.

Todos os dias, milhares e milhares desaparecem num piscar de olhos. É tão, mas tão fácil para nós, tirar a vida desses pequenos insetos... Podemos fazer isso de trilhões de formas. E continua sendo fácil. Fácil demais, pra uma criatura que deveria ter sua função especial na natureza. No universo.

Quando você assassina uma multidão de 100 formigas que andavam sobre sua mesa, o que acontece com elas depois disso?

Será que formigas tem seu espaço no céu, ou em outro plano espiritual? Um lugarzinho guardado só para os animais, ou só para as formigas, quem sabe?

Será que elas reencarnam? Vivem em um ciclo sem fim de morte e depois de renascimento em outro corpo. Corpo de formiga ou corpo de outro animal?

Não sei.

E sinceramente, entro em um delírio temeroso, um medo muito grande por não saber. Medo, na verdade, por ter quase a resposta na ponta da língua...

Ao mesmo tempo, pensar que suas vidinhas acabariam para SEMPRE ali, de forma injusta, é uma possibilidade que minha pobre mente humana primitiva não consegue aceitar. Todos nós – ou melhor, quase todos – não PODEMOS acreditar que nossas vidas só existem NESTE momento, e depois, puff... acabou.
É cruel e impensável. Insensível demais. Terrível demais.

O fato é que não sabemos o que acontece com elas. Nunca saberemos. Não enquanto ainda estivermos por aqui. Ou talvez nem quando estivermos do outro lado. Isso se existir um outro lado.

Não sabemos o que acontece a nós mesmo nem sequer NESSA vida, imagina numa próxima. E continuaremos a ficar sem saber.

Custo a pensar, a querer pensar, que a reencarnação não existe. Não quero acreditar.

Pois isso destrói com o meu pensamento humano e egoísta de que minha presença neste mundo, nessa época atual, vale alguma coisa. Qual seria o verdadeiro SENTIDO da vida, se eu já tivesse nascido muitas outras vezes? Qual seria o sentido de sequer UMA existência minha, se eu irei nascer em OUTRAS vezes daqui uns anos? Não, não consigo e não posso aceitar.

Não sei. Não sabemos.

Por outro lado, essa pequena reflexão sobre EXISTENCIA, me faz perceber acima de tudo o PODER. E que por mais cruel que seja, me faz ter a certeza sobre a existência de Deus.

Se nós, humanos, falhos, triviais, e desumanos que somos – sim, entenda a ironia – temos o PODER de destruir tantas vidas, não só as nossas próprias como a de outros seres, como a de centenas, a capacidade de exterminar centenas de milhares de formiguinhas e outros insetos com essa facilidade inadmissível... então, em algum lugar no universo, se não em todo nele, existe, ou existem, algo que seja capaz do mesmo conosco.

A capacidade de destruir galáxias inteiras, a de exterminar estrelas. Milhões delas, centenas de milhares, a milhares de dezenas delas.

Assim como também, o poder, mais fácil e indescritível ainda, de criar.

Não sabemos. Não podemos entender, comprender ou afirmar. Não enquanto estivermos aqui. Não enquanto não o vermos.

Continuemos, então, a sermos apenas uma porção de formiguinhas. 

Christian Vinharski

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Devaneios de um Escritor




            Existem muitas armas que podem matar o ser humano. Existem muitas formas de ferir um atleta. Mas nada – repito: nada – mata um artista, um escritor, como a preguiça e a ansiedade demasiada.

Primeiro, a preguiça me dominou. Depois, o tempo me consumiu. Daí eu já não conseguia mais escrever coisa alguma.

Não me impediu de ter ideias boas, mas impeliu-me de colocá-las em prática, de transformá-las em algo.

E isso era o mais importante.

Escrever é ser solícito. Alguma coisa que existe dentro de você, simplesmente pede e você faz.

Às vezes não lhe é preciso nem de ideias, planejamento ou outra coisa qualquer, só coragem. O começo de uma pequena fagulha de inspiração, sentando na cadeira com altivez para encarar os pecados que estarão por vir à primeira página.

Começando desse ponto de partida, você consegue seguir em frente, preenchendo o mundo vácuo, sem espaço e altura. Sem limites.

Sobre todas as outras coisas, o ato de escrever é sobre ser corajoso. Muito mais do que na vida real. Nem sempre precisamos ter uma ideia fenomenal, um lampejo divino – as mãos tremem de repente, seu corpo estremece e o coração tropeça por alguns instantes – essas coisas.

Não.

Você não precisa ser o dono de uma obra de arte. Precisa ter coragem. Muito dela.

E quando se sentir mostrando-se de corpo e alma ao mundo, despindo-se sem pudor das regras que o regem, você vai estar se apresentando ao universo da mesma forma que veio a ele: sem ideias engrenadas e raciocínios engatilhados. Você cai ao chão exausto, corpo livre e solto, pálido de todas as coisas que despejou para fora. Você se encontra deitado e estático como uma folha branca de papel.

Após o momento de coragem que se apresentou altivamente ao mundo, o escritor se acovarda.

Aguardamos durante semanas. Meses. Lemos, cortamos, remexemos – editamos o texto ao nosso gosto. Depois passamos o texto para conhecidos lerem. De preferência àqueles que compartilham do mesmo sentimento, que tivemos no momento de escrever. Então recebemos os elogios e as críticas.

Ah sim, claro, as críticas. Muito, muito importantes.

Seja parabenizado; ouça todos lhe dizerem sobre o seu argumento e expressarem suas opiniões. Alegre-se e se inspire. Tome as críticas como partida para melhorar. No dia seguinte, não pense. Vá, e escreva. Sem decorrência.

Feito? Então esqueça-se dos elogios, eles não valem mais de nada. Não para você.

Não serão eles a trazer experiência. Irão te fortalecer e impulsioná-lo ao próximo passo: melhorar. Mas não transformarão você em algo melhor. As críticas fazem isso.

Então escreva.

Coragem. Reedite o texto, releia, corte, preencha. Coragem.

Mostre para outras pessoas desta vez. Repita o processo, cada vez mais e mais intenso.

Mostre a todos. Não só há um grupo de pessoas.

Á todos.

Pois o ato de escrever nem sempre é sólido, nem sempre partirá de uma ideia e história inteira a se contar.

Às vezes, começamos apenas do pressuposto de se ter uma pequena premissa e a coragem o suficiente para iniciá-la. Dar-lhe vida.

Como foi este texto aqui.


Christian Vinharski